O que torna o final de “Dele & Dela” tão perturbador é o modo como ele desmonta tudo o que a própria série ensinou o espectador a acreditar. Durante seis episódios, a narrativa constrói um jogo de espelhos entre Anna Andrews e Jack Harper, alternando versões, memórias e suspeitas, até transformar os dois em potenciais culpados. O último capítulo revela que essa desconfiança constante nunca foi sobre eles. O verdadeiro mistério sempre esteve enterrado no passado de Anna e na forma como esse passado foi protegido a qualquer custo.

Quando a história parece resolvida com a queda de Lexy Jones, o público é induzido a aceitar uma solução confortável. A revelação de que Lexy era, na verdade, Katherine Kelly, uma antiga vítima de bullying que carregava um histórico de ressentimento e vínculos ocultos com Richard, funciona como uma resposta lógica para a sequência de mortes. A encenação do confronto, o tiro disparado por Priya e o encerramento oficial do caso criam a sensação de justiça concluída. Tudo ali soa como um final de manual, o tipo de desfecho que tranquiliza o sistema, mas não a verdade.
É justamente essa sensação de falsidade que a série usa como armadilha. Um ano depois, o surgimento da carta muda completamente o eixo da história. Alice, mãe de Anna, assume os assassinatos e revela que a trama inteira estava sustentada por uma vingança silenciosa. Ao descobrir que a filha havia sido vítima de abuso sexual quando jovem, em uma armadilha arquitetada por Rachel, Helen e Zoe, Alice decide agir fora de qualquer noção de lei ou moral social. O que move Alice não é justiça, é um amor distorcido, radical e desesperado, que transforma dor em sentença de morte.
Essa revelação redesenha tudo o que veio antes. As vítimas deixam de ser figuras aleatórias dentro de um suspense policial e passam a representar uma violência coletiva que permaneceu impune por décadas. A série propõe algo incômodo. O crime original nunca foi punido. Ele apenas mudou de forma. Alice se torna assassina ao tentar corrigir um mundo que falhou com sua filha, e essa escolha cria um paradoxo impossível de resolver.
O impacto emocional maior recai sobre Anna. Ao ler a carta, ela compreende que sua vida foi moldada por um pacto de silêncio que começou muito antes do primeiro episódio. Proteger a mãe passa a significar aceitar que a verdade completa nunca poderá vir à tona. Anna escolhe sobreviver, mesmo que isso exija conviver com uma mentira permanente. Essa decisão não é apresentada como heroica, mas como humana, frágil e profundamente dolorosa.
O reencontro com Jack ganha outro peso dentro desse contexto. Eles retomam a relação, constroem uma nova família e tentam reconstruir algo que havia sido destruído pelo luto da filha que perderam. No entanto, essa reconstrução se apoia sobre um segredo tóxico. Jack passa a viver ao lado de uma mulher que carrega a verdade sobre a morte da própria irmã, sem saber disso. A normalidade que eles buscam no final é real, mas também é construída sobre uma base instável.
O que “Dele & Dela” entrega em seu desfecho é uma crítica silenciosa à ideia de finais felizes dentro de histórias de trauma. A série sugere que algumas feridas jamais cicatrizam por completo e que certas escolhas, mesmo quando feitas por amor, deixam marcas permanentes. O mistério do assassino se resolve, mas o enigma moral permanece aberto. E é justamente essa ambiguidade que transforma o final em algo tão inquietante quanto memorável.
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