“Lindas e Letais” chega ao seu desfecho como uma obra que troca a leveza inicial por um terreno mais áspero, onde sobrevivência e trauma passam a dividir espaço com disciplina artística. Dirigido por Vicky Jewson e estrelado por Uma Thurman, o filme constrói um final que evita respostas fáceis e aposta em um encerramento que ecoa além da última cena.
O ponto de virada acontece quando aquilo que parecia apenas um contratempo de viagem se transforma em aprisionamento. A chegada das bailarinas à Estalagem Teremok rompe completamente com o universo controlado em que viviam. O filme faz questão de desmontar a ideia de proteção, colocando essas jovens diante de uma realidade onde talento algum serve como escudo imediato. A morte de Thorna sela essa ruptura. A partir daí, não existe mais a expectativa de resgate. Existe apenas reação.
É nesse cenário que Devora assume o centro dramático. Longe de uma antagonista construída sobre clichês, ela carrega um passado que reconfigura a leitura de suas ações. A mutilação que interrompeu sua trajetória na dança não funciona apenas como detalhe biográfico, mas como motor de tudo que vem depois. Sua vingança não nasce do impulso, mas de um acúmulo silencioso de violência sofrida. A Estalagem deixa de ser cenário e passa a operar como extensão desse plano, um espaço moldado para um acerto de contas inevitável.
Quando o filme se aproxima do clímax, a lógica de Devora já não comporta desvios. A decisão de manter as bailarinas no local, mesmo sem tê-las como alvo direto, evidencia um estado de obsessão. O plano se torna maior do que qualquer variável humana ao redor, e isso inclui possíveis inocentes. Há uma frieza nesse processo que distancia Devora de qualquer possibilidade de redenção clássica, ainda que sua motivação seja compreensível.
A explosão da Estalagem Teremok funciona como um ponto de ruptura definitivo. Narrativamente, ela cumpre um papel claro: desmontar a estrutura de poder que sustentava o ciclo de violência. Mas o filme opta por não oferecer uma resposta direta sobre o destino de Devora. E essa escolha não parece acidental. A ausência de um corpo, de uma confirmação, mantém a personagem em suspensão, como se sua história ainda estivesse em aberto, mesmo após o colapso físico daquele espaço.
Em paralelo, há o desfecho das protagonistas, que caminham em direção oposta. A chegada ao festival em Budapeste não representa apenas a concretização de um objetivo inicial, mas uma ressignificação completa do que aquela jornada significa. Quando sobem ao palco, já não são as mesmas. A performance final carrega marcas que o público dentro do filme não necessariamente compreende, mas que para elas funcionam como memória viva de tudo que enfrentaram.
Esse contraste é talvez o elemento mais interessante do final. De um lado, a destruição absoluta. Do outro, a tentativa de reconstrução através da arte. O balé, que antes era disciplina e ambição, passa a ser também expressão de sobrevivência. Não há ingenuidade restante ali.
O encerramento sugere uma transformação coletiva. As rivalidades perdem importância diante da experiência compartilhada. O grupo deixa de ser um conjunto de talentos individuais e passa a operar com uma consciência mais pragmática do mundo ao redor. Há um amadurecimento que não vem do tempo, mas do choque com a violência.
Sobre Devora, a ambiguidade permanece como peça central. Se morreu, sua trajetória se fecha como um ato extremo de ruptura. Se sobreviveu, sua história ainda carrega potencial para novos desdobramentos. O filme entende o peso dessa dúvida e a preserva como parte do seu impacto.
“Lindas e Letais” escolhe não entregar conforto. Prefere encerrar sua narrativa deixando marcas, tanto nas personagens quanto em quem acompanha. E nesse gesto, encontra sua identidade.
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