Por trás das cercas brancas, da riqueza silenciosa e dos verões à beira-mar, “Mentirosos” revela que o inferno às vezes atende por sobrenome. A primeira temporada da série do Prime Video mergulha na mente estraçalhada de Cadence Sinclair e entrega, sem filtros, um drama que se constrói como tragédia grega. Há culpa, há luto, há negação e há fantasmas. Todos reais. Todos sufocantes.
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Atenção: este texto contém spoilers sobre o desfecho de “Mentirosos”.

Desde o primeiro episódio, o público é arrastado para uma atmosfera onde o tempo não é linha reta, mas fragmento. A série constrói sua narrativa como quem tenta montar um quebra-cabeça cujas peças estão molhadas, retorcidas e, algumas delas, faltando de propósito. Cadence não se lembra do que aconteceu no verão anterior, e isso é tudo que importa. Porque a verdade, aqui, não é só um mistério. É um trauma engasgado que o roteiro se recusa a cuspir de uma vez.
O que a série faz, com competência, é abraçar sua própria ambiguidade. Os “Liars”, grupo que inclui os primos Mirren e Johnny e o forasteiro Gat, surgem como cúmplices nostálgicos de um tempo bom demais para ser verdade. E não era. Cada aparição, cada conversa, cada sorriso compartilhado é, no fim, um lembrete cruel: mortos não voltam, a menos que o luto os traga de volta à força.
O grande trunfo da temporada está justamente na revelação de que esses encontros não são memórias. São assombrações. Mas não no sentido óbvio. Aqui, o sobrenatural opera como metáfora do colapso emocional, da culpa inconsolável que se manifesta em forma de rostos familiares. E o mais assustador não é ver os mortos caminhando. É perceber que a mente de Cadence os preservou para protegê-la de si mesma.
A tragédia central, um incêndio iniciado pelos próprios adolescentes em protesto ao racismo e ao controle patriarcal da família, é tão simbólica quanto real. Eles queriam queimar um sistema. O sistema os queimou de volta.
Cadence sobrevive, mas o que resta dela é um espectro. A série entende isso e não tenta curá-la. Em vez de redenção, entrega consciência. Em vez de perdão, oferece ruptura. O embate com Harris Sinclair, patriarca sufocante e manipulador, é o momento em que a herdeira diz basta à continuidade do ciclo. A escolha de abandonar a ilha não é só geográfica. É estrutural. É política. É simbólica.
“Mentirosos” se destaca entre os dramas adolescentes justamente por dar densidade ao que parece ser só mais um mistério juvenil. Existe crítica social, existe denúncia da branquitude elitista, existe dor legítima travestida de enigma. E existe coragem narrativa em afirmar que nem todo trauma precisa de solução. Alguns precisam apenas ser expostos.
Cadence não sai salva. Sai desperta. E essa é a vitória possível dentro do universo podre e brilhante que a série constrói.
Mesmo sem confirmação de uma nova temporada, o encerramento da primeira já parece suficiente. A jornada não exige continuação, mas reverberações. E elas ficam. “Mentirosos” entrega uma experiência onde o horror é familiar, a dor é íntima e a verdade, como sempre, é a última a aparecer. Quando aparece, queima tudo.
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