O cinema documental tem o poder de revelar verdades que, muitas vezes, soam mais assustadoras que qualquer ficção. “Número Desconhecido: Catfishing na Escola”, dirigido por Skye Borgman e lançado pela Netflix em 2025, é prova disso. A produção parte de um caso aparentemente banal de cyberbullying em uma pequena comunidade americana, mas termina expondo uma das reviravoltas mais perturbadoras já vistas em histórias reais recentes. O que começa como um mistério de mensagens anônimas termina como um retrato devastador da fragilidade da confiança dentro de uma família.
- Crítica: “A Namorada Ideal” (The Girlfriend) – primeira temporada
- The Town 2025: acertos e erros da segunda edição do festival
- Final explicado de “As Mortas”

A trama se passa em Beal City, Michigan, uma cidade minúscula em que todos se conhecem, lembrando o clima sufocante de produções como “Twin Peaks” ou até “Sharp Objects”. Ali, Lauryn Licari, de apenas 13 anos, e seu namorado Owen passam a receber mensagens cruéis de um número desconhecido. Insultos, ameaças e até descrições explícitas que pareciam vir de alguém muito próximo. O caso mobiliza a polícia, envolve o FBI e vai lentamente dilacerando a comunidade, já que cada aluno passa a ser visto como suspeito. É o tipo de narrativa em que o inimigo parece estar em toda parte, até que a verdade revela que o perigo sempre esteve dentro de casa.
A grande virada chega quando descobrimos que a autora das mensagens era ninguém menos que Kendra Licari, a própria mãe de Lauryn. A cena da revelação, mostrada através da câmera do xerife, tem peso cinematográfico: uma mistura de choque, incredulidade e silêncio sufocante. A ideia de que uma mãe possa sabotar a própria filha, inventando uma perseguição que durou mais de um ano, remete ao desconforto que sentimos em documentários como “Mommy Dead and Dearest” ou “Abducted in Plain Sight”.
Kendra acabou presa em 2022, cumpriu pena e, ao ser libertada em 2024, aceitou participar do documentário. Sua presença diante das câmeras adiciona uma camada ambígua: entre o remorso e a justificativa, ela se apresenta como alguém que perdeu o controle, mas nunca oferece uma resposta definitiva que sacie o espectador. Essa ambiguidade é o coração do filme: será que arrependimento basta quando a ferida foi causada por quem deveria proteger? A diretora não entrega respostas fáceis, preferindo deixar o público no desconforto da dúvida.
O final de “Número Desconhecido: Catfishing na Escola” é um convite à reflexão. Ao invés de encerrar com uma catarse, Borgman nos confronta com a realidade de que nem sempre há redenção plena e que algumas relações, mesmo diante do perdão, carregam rachaduras irreparáveis. A comunidade de Beal City nunca mais será a mesma, assim como Lauryn nunca mais olhará para a mãe com os mesmos olhos.
O impacto da obra está também no seu contexto. Em uma era em que aplicativos oferecem anonimato instantâneo, o documentário mostra como a tecnologia pode ser usada como arma dentro do ambiente mais íntimo possível: a família. Se outros documentários exploraram a malícia de estranhos, este expõe o terror de perceber que a ameaça pode estar na pessoa mais próxima.
Por isso, “Número Desconhecido: Catfishing na Escola” não é só mais um sucesso da Netflix, mas um lembrete amargo do quanto o digital intensifica vulnerabilidades humanas. O espectador sai da experiência carregando a mesma sensação que obras como “The Act” ou “Evil Genius” nos provocaram: uma mistura de incredulidade, indignação e fascínio mórbido. O final, longe de trazer respostas, nos obriga a encarar perguntas que incomodam.
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






