A nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” recoloca em cena uma das histórias mais inquietantes da literatura inglesa. Baseado no romance de Emily Brontë e dirigido por Emerald Fennell, o filme opta por um recorte concentrado na espinha dorsal da narrativa: a ligação visceral entre Catherine Earnshaw e Heathcliff. Ao reduzir parte das ramificações da segunda geração presentes no livro, a produção escolhe um encerramento mais emocional, direto e simbólico.
Interpretados por Margot Robbie e Jacob Elordi, Cathy e Heathcliff são apresentados como duas forças que crescem juntas em Wuthering Heights e se moldam a partir de uma convivência intensa, quase selvagem. O vínculo entre eles nasce na infância e se transforma em algo que ultrapassa romance. É pertencimento, é espelhamento, é obsessão. O problema é que o mundo ao redor exige escolhas práticas, sociais e estratégicas.
Quando Cathy decide se casar com Edgar Linton, ela escolhe estabilidade, status e segurança. A decisão não apaga o sentimento por Heathcliff, mas o desloca para um território proibido. Esse gesto é o ponto de ruptura definitivo. O amor continua, mas passa a existir sob a forma de frustração e orgulho ferido. Heathcliff parte carregando humilhação e retorna anos depois transformado, com dinheiro e uma postura endurecida pelo ressentimento.
O reencontro dos dois não traz reconciliação. Ele reacende um incêndio que jamais foi totalmente apagado. Cathy, agora inserida em uma rotina confortável ao lado de Edgar, percebe que estabilidade não substitui intensidade. Heathcliff, por sua vez, retorna incapaz de amar de forma generosa. Ele ama com rancor, com desejo de revanche, com necessidade de provar algo ao passado.
A gravidez de Cathy amplia a tensão. O filho é de Edgar, confirmação que reforça a distância concreta entre os antigos amantes. Ao mesmo tempo, Heathcliff se casa com Isabella Linton, em um movimento que carrega mais cálculo do que afeto. O casamento funciona como instrumento de vingança, não como reconstrução emocional. A partir daí, o ambiente se torna sufocante.
Cathy entra em colapso. O isolamento, a fragilidade física e o desgaste psicológico revelam que a personagem vive dividida entre duas versões de si mesma: a mulher que escolheu convenção social e a jovem que se sentia inteira ao lado de Heathcliff. Um aborto espontâneo agrava sua saúde e simboliza, de forma brutal, a impossibilidade de conciliar esses mundos.
No clímax, o filme opta por uma abordagem contida. Heathcliff não recebe uma despedida redentora. Ele chega tarde demais. Cathy já está morta. Não há reconciliação física, não há promessa sussurrada no último suspiro. Há ausência. Essa escolha narrativa reforça o que a adaptação quer sublinhar: o amor entre eles nunca encontrou espaço viável na realidade concreta.
A cena em que Heathcliff segura o corpo de Cathy sintetiza o tom da obra. Sua dor não é romântica no sentido tradicional. Ela é desesperada, quase espiritual, como se ele estivesse implorando para que o vínculo ultrapassasse a morte. O filme sugere que o elo entre os dois existe em um plano simbólico que independe de convenções sociais. O amor deles não é funcional. Ele é absoluto e, justamente por isso, destrutivo.
O desfecho de “O Morro dos Ventos Uivantes” reafirma a essência trágica do romance original. Não há recompensa para escolhas impulsivas. Não há redenção tardia capaz de reorganizar o que foi quebrado. A morte de Cathy não encerra apenas uma história de amor. Ela consuma um ciclo iniciado na infância, quando duas personalidades intensas se reconheceram como semelhantes demais para coexistir em equilíbrio.
Ao priorizar a dimensão emocional do conflito e condensar a narrativa nesse vínculo central, o filme transforma o final em uma reflexão sobre paixão levada ao limite. Alguns sentimentos são grandes demais para caber no mundo real. E quando confrontados com regras sociais, orgulho e medo, acabam se convertendo em ruína.
“O Morro dos Ventos Uivantes”, nessa versão, não busca suavizar o impacto da tragédia. Pelo contrário. Ele reforça que o amor entre Cathy e Heathcliff nunca foi sobre felicidade. Foi sobre intensidade. E intensidade, quando não encontra medida, costuma deixar apenas destroços.
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