O final de “Os Sete Relógios de Agatha Christie”, da Netflix, confirma que a minissérie jamais esteve interessada em oferecer respostas simples. O que começa como um mistério clássico de assassinato em uma mansão inglesa se transforma, aos poucos, em uma história sobre encenação, manipulação e heranças invisíveis deixadas por um mundo marcado pela guerra e pela paranoia política dos anos 1920.

Quando a trama revela que a suposta morte de Jimmy fazia parte de uma farsa cuidadosamente planejada, a série deixa claro que quase tudo o que foi apresentado até ali funcionava como distração. Nada naquele jogo de aparências era acidental, e cada detalhe aparentemente irrelevante carregava um propósito maior. A falsa execução serve como cortina de fumaça para o verdadeiro objetivo do grupo envolvido no crime: o roubo do relógio do Dr. Matip e, sobretudo, da fórmula científica que ele escondia.
À medida que a narrativa se aproxima do desfecho, as alianças se desfazem. Jimmy assume sua participação, Loraine foge com o objeto central da conspiração e o quebra-cabeça começa a se reorganizar diante de Bundle. O choque real não está nos crimes em si, mas em quem os arquitetou. A revelação de que Lady Caterham, mãe da protagonista, comandava toda a operação redefine completamente o arco emocional da história.
Lady Caterham surge como uma personagem moldada por perdas profundas. A guerra destruiu sua família, sua estabilidade financeira e qualquer ilusão de segurança. O crime, nesse contexto, passa a ser apresentado como consequência direta de um mundo que deixou cicatrizes permanentes. Ela não age por prazer ou ganância pura, mas por ressentimento, sobrevivência e uma tentativa desesperada de retomar o controle da própria vida. Ainda assim, a série jamais romantiza suas escolhas.
O momento em que o Superintendente Battle intervém impede que Bundle seja forçada a tomar uma decisão irreversível. Essa intervenção funciona como um freio moral dentro de uma narrativa que flerta o tempo todo com a ideia de justiça pelas próprias mãos. A prisão dos responsáveis encerra o caso criminal, mas abre espaço para a reviravolta final, talvez a mais simbólica de todas.
A revelação de que os temidos Sete Relógios jamais foram vilões muda completamente o significado do título da obra. Eles surgem como uma organização secreta dedicada à proteção global, operando nas sombras em um mundo ainda instável após a Primeira Guerra Mundial. Battle faz parte desse grupo, assim como o pai de Bundle no passado, conectando a protagonista a uma herança que ela desconhecia.
O convite para que Bundle integre os Sete Relógios encerra a minissérie com um gesto de passagem. A jovem que começou a história envolvida em um crime por acaso termina consciente de que sua vida sempre esteve ligada a algo maior. O mistério se resolve, mas o futuro permanece aberto, sugerindo que a verdadeira jornada de Bundle está apenas começando.
No fim, “Os Sete Relógios de Agatha Christie” respeita o espírito da autora ao entregar um desfecho engenhoso, cheio de camadas e moralmente ambíguo. O crime é solucionado, os culpados são revelados, mas o impacto real está na transformação da protagonista e na constatação de que, em certos jogos de poder, a verdade sempre chega acompanhada de um preço alto demais.
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