Há pouco mais de um ano, Gaby Amarantos colocou no mundo um disco que parecia determinado a desafiar até mesmo a maneira pela qual se costuma organizar um álbum. “Rock Doido”, lançado em 29 de agosto de 2025, tinha 22 faixas comprimidas em 36 minutos, músicas que atravessavam umas às outras, interlúdios, participações, tecnobrega, tecnomelody, funk, carimbó, humor, erotismo e a memória sonora das aparelhagens de Belém transformada em linguagem pop. Ao mesmo tempo, um filme gravado em plano-sequência no bairro da Condor expandia aquela música para corpos, ruas, bares, dança e imagem. Um ano depois, voltar a “Rock Doido” ajuda a compreender que o projeto não estava apenas documentando uma cultura. Gaby Amarantos estava propondo uma maneira diferente de enxergar de onde pode partir a inovação dentro da música brasileira.

Foi essa sensação que atravessou uma audição especial do álbum realizada nesta terça-feira (22), em São Paulo. Ouvir novamente “Rock Doido” depois de acompanhar seu primeiro ano de existência produz uma experiência diferente daquela provocada pelo impacto inicial. Em setembro de 2025, quando publiquei minha primeira crítica do disco, defini o trabalho como um daqueles raros projetos que “nascem clássicos”. Era uma afirmação deliberadamente grande para um álbum que tinha acabado de chegar, mas, doze meses depois, talvez a parte mais interessante seja perceber como aquilo que parecia uma aposta crítica ganhou novas dimensões conforme o projeto deixou os fones de ouvido, chegou aos palcos e começou a construir sua própria trajetória.
Há uma razão para isso. “Rock Doido” nunca foi pensado para funcionar exclusivamente como uma coleção de músicas, porque sua arquitetura depende da continuidade. Uma faixa empurra a seguinte, sons aparecem e desaparecem, ideias são interrompidas antes que possam se acomodar e a própria duração reduzida das músicas impede que o ouvinte estabeleça aquela relação convencional de começo, desenvolvimento e encerramento. O álbum reproduz dentro do formato fonográfico uma lógica que pertence às festas de aparelhagem, na qual permanecer em movimento é mais importante do que interromper a experiência para delimitar cada canção.
Essa escolha continua sendo uma das decisões mais radicais do projeto. Em uma indústria organizada cada vez mais ao redor da fragmentação, “Rock Doido” utiliza músicas curtas sem transformar essa concisão em submissão ao consumo rápido. Individualmente, as faixas parecem perfeitamente compatíveis com a velocidade contemporânea, mas a obra pede justamente o contrário ao exigir continuidade e fazer com que a experiência dependa da disposição de atravessar o álbum como um percurso completo.
Quando conversei com Gaby depois da audição, perguntei se durante a criação existia a consciência de que aquele trabalho poderia alcançar tamanha dimensão. A resposta deslocou a discussão do planejamento estratégico para algo muito mais elementar. “De verdade, nós fizemos o ‘Rock Doido’ muito pensando só em se divertir. E eu sei que parece clichê, mas eu reforço isso pras pessoas. O poder da gente fazer algo que vem do nosso coração”, contou.
Existe uma contradição fascinante entre essa espontaneidade e a precisão da obra pronta. “Rock Doido” parece caótico, mas não é desorganizado, assim como transmite a sensação de uma explosão mesmo quando sua construção é minuciosa. O próprio filme evidencia isso ao transformar a periferia de Belém em território cinematográfico enquanto acompanha a lógica contínua do álbum. A cidade não aparece como uma paisagem utilizada para decorar a narrativa, mas como parte estrutural de uma obra cuja identidade depende diretamente daquele espaço.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores diferenças entre “Rock Doido” e projetos que recorrem a símbolos regionais como recurso estético. Gaby não visita a cultura paraense em busca de referências que possam decorar sua música, porque é dessa cultura que a linguagem do álbum nasce. A aparelhagem não aparece como citação, o tecnobrega não funciona como tempero e Belém não precisa ser traduzida para que o restante do país compreenda o que está acontecendo. O movimento realizado pelo projeto é muito mais ambicioso, porque simplesmente desloca o centro da narrativa.
Gaby conta que essa dimensão começou a ser percebida ainda durante as gravações. “Desde o momento em que a gente estava gravando, a gente se arrepiava, a gente sentia coisas que a gente pensava: ‘Cara, isso aqui tem alguma coisa. Vai acontecer alguma coisa’. Então, no momento da concepção, da gravação, eu percebi que a gente tinha algo gigante e que o Brasil ia ver um novo Brasil e que o mundo ia ver um novo Brasil.”
A expressão “um novo Brasil” talvez seja a chave mais interessante para revisitar o álbum hoje, não porque a cultura apresentada em “Rock Doido” seja nova, mas justamente porque as aparelhagens, o tecnobrega, o tecnomelody e a produção cultural das periferias de Belém possuem histórias próprias que antecedem em muito esse disco. O novo está no enquadramento, já que “Rock Doido” questiona por que determinadas manifestações precisam ser constantemente apresentadas ao restante do país como descobertas quando, em seus territórios, já movimentam públicos, tecnologias, economias e linguagens há décadas.
Essa foi também a percepção que se tornou mais evidente quando o álbum ganhou o palco. Em fevereiro deste ano, na estreia da “Rock Doido Tour” em São Paulo, a estrutura que no disco parecia quase abstrata ganhou uma dimensão física. O grave deixou de ser apenas elemento de produção para reorganizar o espaço da casa de shows, enquanto a continuidade entre as músicas transformou-se em permanência corporal. A estética das aparelhagens deixou de ser uma referência que poderia ser identificada intelectualmente para se tornar uma experiência sentida pelo público.
Naquela noite, escrevi que o espetáculo funcionava como um gesto de ocupação cultural, uma impressão que permanece depois de retornar ao álbum e conversar com Gaby. Hoje fica ainda mais evidente que essa ocupação não acontece pela tentativa de adequar a Amazônia urbana às convenções do grande pop brasileiro, porque a operação realizada por “Rock Doido” segue a direção inversa. É a estrutura tradicional do espetáculo pop que precisa se reorganizar para comportar a linguagem que Gaby leva ao palco.
Isso ajuda a explicar por que “Rock Doido” permanece tão difícil de enquadrar. Há música pop ali, mas sua estrutura não obedece necessariamente às convenções do pop. Existe cinema, mas o filme não funciona como uma sucessão convencional de videoclipes. Existe uma turnê, mas o espetáculo preserva características de uma festa. Existe memória, mas o projeto não trata tradição como um objeto intocável, preferindo manipulá-la, acelerá-la, distorcê-la e reorganizá-la dentro de uma linguagem própria.
Foi exatamente a dimensão cinematográfica que me levou, durante nossa conversa, a perguntar sobre o futuro. Há elementos no filme que parecem recuperar capítulos anteriores da trajetória de Gaby ao mesmo tempo em que apontam para algo que ainda não conhecemos. Contei a ela que, na primeira vez em que parei para analisar “Rock Doido”, transformei a audição quase em um ritual, acendendo um incenso e tentando assistir e ouvir o projeto como uma obra única porque havia ali uma estranha sensação de futuro. Gaby riu ao ouvir a história e, quando perguntei se ainda veremos desdobramentos daquela linguagem nos próximos trabalhos, preferiu deixar apenas uma pista: “Fiquem atentos às cenas dos próximos capítulos.”
A resposta combina perfeitamente com um projeto que nunca pareceu interessado em explicar tudo antes da hora, principalmente porque “Rock Doido” trabalha desde sua concepção com a sensação de movimento. Mesmo quando olha para trás e recupera referências profundamente ligadas à história musical e cultural do Pará, Gaby parece interessada em descobrir até onde elas ainda podem ser empurradas.
Passado um ano, também é possível observar como a recepção do projeto acompanhou essa movimentação. Os reconhecimentos conquistados por “Rock Doido” ajudam a colocar no centro das premiações e discussões nacionais uma linguagem que durante muito tempo precisou lutar até mesmo para ser compreendida fora de seu território, mas reduzir a importância do álbum aos troféus seria contraditório com aquilo que torna o trabalho especial. Sua força está justamente na autonomia artística com que Gaby constrói esse universo, sem pedir que a música produzida no Pará seja legitimada porque consegue se aproximar de uma determinada ideia de sofisticação. “Rock Doido” faz o movimento contrário e obriga a própria ideia de sofisticação a se expandir.
Quando escrevi sobre o álbum em 2025, uma das minhas conclusões era que “Rock Doido” transformava referências populares em uma obra conceitual sem retirar delas o caráter democrático. Depois de assistir ao projeto ocupar um palco e, agora, voltar a ele ao lado de sua criadora, eu mudaria uma parte daquela leitura, porque talvez nem seja necessário dizer que Gaby transforma essas referências em algo sofisticado. A sofisticação já estava nelas, e o mérito de “Rock Doido” está em construir uma obra suficientemente ambiciosa para permitir que o restante do Brasil perceba isso.
Foi também por isso que minha pergunta para Gaby partiu de uma experiência pessoal. Disse a ela que sua obra havia mudado minha perspectiva sobre a música nacional e que existia, para mim, uma maneira de enxergar essa produção antes e depois de conhecer seu trabalho. Não se tratava de um elogio protocolar de entrevista, mas da consequência de perceber que “Rock Doido” desmonta uma noção geográfica profundamente arraigada sobre onde procurar aquilo que chamamos de vanguarda.
Durante décadas, boa parte da narrativa da indústria musical brasileira acostumou-se a procurar inovação a partir dos mesmos centros e, posteriormente, observar o que acontecia ao redor deles. “Rock Doido” propõe outra cartografia ao apresentar Belém não como uma cidade esperando ser descoberta, mas como um território que já produz suas próprias linguagens, tecnologias, estéticas e possibilidades de futuro. A mudança parece pequena quando colocada em palavras, mas é enorme quando materializada em uma obra que se recusa a tratar o Norte como periferia criativa de uma indústria cujo centro estaria necessariamente em outro lugar.
Mais de um ano depois, “Rock Doido” continua parecendo muito maior do que seus 36 minutos de duração. O álbum carrega décadas de construção cultural ao mesmo tempo em que aponta para possibilidades que o pop brasileiro ainda está aprendendo a explorar, reorganizando referências, territórios e linguagens que durante muito tempo permaneceram distantes do centro das grandes narrativas da indústria. Quando Gaby conta que, ainda durante as gravações, percebeu que havia algo gigantesco acontecendo e que “o Brasil ia ver um novo Brasil e o mundo ia ver um novo Brasil”, sua frase encontra hoje uma dimensão que talvez nem pudesse ser completamente medida naquele estúdio. “Rock Doido” não inventou esse Brasil, porque ele sempre esteve aqui, produzindo música, tecnologia, estética e cultura. O que Gaby Amarantos conseguiu fazer foi construir uma obra grande o suficiente para colocá-lo no centro da imagem, sem traduzi-lo, domesticá-lo ou diminuir seu volume para ser compreendido, o que ajuda a explicar por que, mais de um ano depois, o álbum continua soando tão próximo do futuro.
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