A HBO Max colocou no ar os primeiros episódios da releitura de “Dona Beja”, produção que assume a missão de revisitar um dos grandes clássicos da teledramaturgia brasileira, originalmente exibido em 1986 pela TV Manchete e protagonizado por Maitê Proença. Quarenta anos depois, a história retorna repaginada, agora com Grazi Massafera no papel principal. E é preciso registrar: Grazi entrega uma interpretação segura, intensa e emocionalmente sofisticada, sustentando o peso simbólico de uma personagem que atravessa gerações.

Inspirada na figura histórica de Ana Jacinta, a famosa cortesã que viveu em Araxá no século XIX, a trama criada por Wilson Aguiar Filho mantém sua espinha dorsal. O que muda é a forma como essa história é contada. A nova versão não tenta copiar o passado. Ela dialoga com o presente. Um detalhe aparentemente simples reforça essa intenção. Em 1986, o título era “Dona Beija”, com “i”. Agora, surge como “Dona Beja”. A alteração na grafia simboliza exatamente isso: não é repetição, é releitura.
Se a novela da Manchete abordava com força o contexto da escravidão, a adaptação atual desloca o eixo das discussões. Os personagens negros não aparecem mais como escravizados, e a narrativa amplia o debate para outras pautas sociais contemporâneas, sem deixar de evidenciar o preconceito racial. A diversidade passa a ocupar lugar central. A melhor amiga de Beja é uma mulher trans salva pela protagonista de uma fogueira em Paracatu, cena que marca uma ruptura clara em relação à versão de 1986, na qual a lealdade vinha principalmente de personagens escravizados, como Severina.
Outro ponto relevante é a abordagem da gordofobia, representada na trajetória de Carminha, que sofre críticas constantes da própria mãe por conta da aparência física. É um conflito que aproxima a novela do público atual e evidencia como as pressões estéticas continuam atravessando gerações. A sexualidade também ganha novas camadas. Maria declara seus sentimentos por Beja antes de seguir para o convento. O Boticário enfrenta conflitos internos por seus desejos por outros homens. A narrativa amplia o debate sem recorrer ao choque gratuito. Há intenção dramática e coerência temática.
Entre minhas cenas preferidas até agora está o momento em que Josefa, interpretada por Thalma de Freitas, aponta uma arma para defender sua dignidade. A sequência sintetiza um dos pilares da nova versão: o empoderamento feminino não é discurso vazio, é ação. A nudez e o erotismo também recebem tratamento distinto. Em 1986, o corpo feminino era frequentemente filmado sob uma ótica de exposição e escândalo. Em 2026, a nudez permanece, mas assume caráter estético e narrativo. O corpo deixa de ser objeto e passa a ser linguagem.
O elenco majoritariamente diverso reforça essa atualização. A presença de atores pretos em posições centrais e a inclusão de personagens com diversidade de gênero não funcionam como recurso decorativo. São escolhas estruturais. Outro aspecto que diferencia as versões é o ritmo. A produção original teve 89 capítulos. A nova adaptação terá 40. O formato do streaming exige agilidade, e a narrativa responde com dinamismo e densidade.
Readaptar uma obra quatro décadas depois é um desafio considerável. Não apenas pela atuação marcante de Maitê Proença, mas porque o Brasil mudou. As discussões sobre poder, sexualidade, raça e representação exigem novos olhares. A nova “Dona Beja” entende isso. Não tenta apagar o passado. Também não se limita a reproduzi-lo. Atualiza conflitos, amplia representatividade e preserva a essência da personagem que desafia moralidades e hipocrisias.
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