Durante mais de uma década, o nome de Kesha esteve ligado a um dos casos mais complexos, sensíveis e debatidos da indústria musical. A batalha judicial envolvendo a artista e o produtor Dr. Luke ultrapassou tribunais e contratos, tornando-se um símbolo das relações de poder dentro do pop, do controle criativo e das dificuldades enfrentadas por artistas em estruturas corporativas rígidas.

O conflito teve início em 2014, quando Kesha entrou com uma ação civil acusando o produtor de abuso emocional, sexual e psicológico ao longo dos anos em que trabalharam juntos. Em resposta, Dr. Luke moveu processos por difamação e quebra contratual contra a cantora e sua mãe. A partir desse momento, o caso se desdobrou em uma longa sequência de decisões judiciais, recursos, apelações e disputas paralelas que se estenderam por quase dez anos.
Ao longo do processo, Kesha descreveu um ambiente de trabalho marcado por medo, coerção e perda de autonomia artística. Documentos judiciais, depoimentos e relatos apontaram um impacto profundo sobre sua saúde emocional e sua liberdade criativa, algo que se refletiu diretamente na produção musical da artista durante esse período.
Do outro lado, Dr. Luke sempre negou as acusações e sustentou que as alegações faziam parte de uma tentativa de romper contratos considerados válidos pela Justiça. Decisões judiciais desfavoráveis à cantora, especialmente entre 2016 e 2020, alimentaram debates intensos sobre o funcionamento do sistema legal, a dificuldade de comprovação de abusos em relações de poder e o peso das estruturas corporativas da indústria fonográfica.
Mesmo sem uma resolução imediata nos tribunais, o caso provocou uma mobilização inédita dentro e fora da indústria musical. O movimento #FreeKesha ganhou força global, artistas se posicionaram publicamente e o debate sobre contratos abusivos, autonomia artística e violência estrutural ganhou espaço no mainstream.
Figuras centrais do pop expressaram apoio à cantora, tanto de forma simbólica quanto prática. Doações financeiras, declarações públicas em premiações e ofertas de colaboração reforçaram a dimensão coletiva do caso. Mais do que uma disputa judicial, a situação passou a representar um embate entre indivíduo e sistema, algo que ecoou em toda uma geração de artistas.
Em junho de 2023, às vésperas de um novo julgamento, Kesha e Dr. Luke anunciaram um acordo extrajudicial. Os termos permaneceram sob sigilo, mas o comunicado conjunto deixou claro que ambas as partes optaram por encerrar o litígio e seguir caminhos separados.
Para Kesha, o acordo representou o encerramento formal de um ciclo marcado por desgaste, limitação criativa e exposição pública constante. A partir desse momento, a artista retomou o controle total sobre sua carreira e passou a operar de forma independente, abrindo espaço para uma nova fase artística e pessoal.
“Period”: liberdade como conceito e prática
Lançado em 4 de julho de 2025, o álbum “Period” simboliza esse novo começo. O título funciona como uma declaração direta. Um ponto final em uma era de controle externo e o início de um período de autonomia criativa plena.
Produzido de forma independente pela Kesha Records, o disco apresenta uma artista livre para experimentar. As 11 faixas transitam entre pop, hyperpop, EDM, disco, house, country e até elementos inesperados, como referências à polca. A diversidade sonora reflete um processo criativo guiado pela alegria, pela autoafirmação e pela reconstrução da identidade artística.
Singles como “Joyride”, “Delusional”, “Boy Crazy” e “The One” reforçam essa proposta, enquanto a produção colaborativa com nomes como Zhone, Hudson Mohawke e Nova Wav amplia o alcance estético do projeto. A recepção crítica destacou a energia libertadora do álbum, mesmo diante de opiniões divididas sobre sua ousadia sonora.
Essa nova fase ganhou forma definitiva nos palcos com a “The Tits Out Tour”, turnê co-headliner de Kesha com o Scissor Sisters. Mais do que divulgar um álbum, o espetáculo funciona como uma narrativa visual sobre sobrevivência, ruptura e reconstrução.
Com cerca de 90 minutos de duração, o show revisita diferentes momentos da carreira da cantora, ressignificando hits antigos sob uma nova perspectiva. Elementos cênicos, figurinos e performances carregam simbolismos claros, incluindo referências diretas a abuso, exposição midiática e libertação emocional.
Momentos específicos do espetáculo chamaram atenção da crítica pela força imagética. A desconstrução da imagem da “velha Kesha”, o uso de palavras projetadas no palco e a interação intensa com o público transformam o show em uma experiência pessoal, política e performática. A encenação reforça a ideia de que a turnê representa mais do que entretenimento. Trata-se de um posicionamento artístico claro.
O retorno ao Brasil e o peso desse momento
Em 2026, Kesha retorna ao Brasil como atração principal do CarnaUOL, em São Paulo, marcando sua primeira passagem pelo país em mais de uma década. O show acontece no dia 24 de janeiro, no Allianz Parque, em um momento especialmente simbólico de sua trajetória.
A apresentação integra a “The Tits Out Tour” e surge como a celebração pública de uma artista que retomou o controle sobre sua própria narrativa. Em um festival que reúne grandes nomes da música brasileira, a presença de Kesha carrega um peso que vai além do setlist. Representa resistência, reinvenção e a reafirmação da liberdade criativa como valor central.
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






