Lançada em fevereiro de 2026, “White Feather Hawk Tail Deer Hunter” coloca Lana Del Rey novamente no centro de um debate cultural que ultrapassa a música. A faixa, que integra o álbum “Stove”, traz uma referência direta à poeta Sylvia Plath e reacende um dos símbolos mais dolorosos da literatura do século 20.
O verso “I imagine you do / Know how absolutely bad I’m with an oven” funciona como eixo dramático da canção. A menção ao forno remete imediatamente à morte de Plath, que tirou a própria vida por inalação de gás. Não se trata de uma referência gratuita ou superficial. Trata-se de um gesto calculado, que conecta a tradição confessional da poeta à construção estética de Lana ao longo da última década.
Ao longo da carreira, Lana construiu a imagem da mulher romântica, vulnerável e inclinada à autodestruição. Em “hope is a dangerous thing for a woman like me to have – but i have it”, ela já havia se descrito como uma “Sylvia Plath 24/7”. A diferença agora está na forma como esse imaginário é reorganizado. Se antes a identificação era direta e quase total, em “White Feather Hawk Tail Deer Hunter” ela se torna metáfora tensionada pela domesticidade.
O título do álbum, “Stove”, reforça essa centralidade simbólica. O fogão aparece como elemento ambivalente. É o espaço da comida feita para o marido, do calor do lar, da intimidade. Também é o instrumento associado ao isolamento e ao desespero feminino na história literária. Lana joga com essa dualidade de maneira consciente. A estética de “tradwife” surge como performance e questionamento ao mesmo tempo.
No videoclipe, o simbolismo ganha materialidade. Lana surge em um ambiente escuro, levemente claustrofóbico, colocando a cabeça dentro do forno. A imagem é direta, desconfortável, impossível de ignorar. Em seguida, a montagem corta para cenas luminosas, com textura de vídeo caseiro, em que ela aparece ao lado do marido Jeremy Dufrene no quintal e na garagem.
O contraste visual estrutura a narrativa. A cena do forno representa o mergulho na mitologia da “sad girl”. O corte para as imagens domésticas sugere deslocamento, transformação, reorganização de identidade. Jeremy aparece como figura concreta, distante da idealização trágica, quase como âncora que puxa a artista para fora do mito literário.
A recepção nas redes sociais aponta três leituras principais. A primeira enxerga o clipe como uma espécie de “morte simbólica” da persona melancólica que marcou discos anteriores. A segunda interpreta o gesto como ironia sofisticada sobre o ideal da esposa perfeita. Versos como “Whoopsie-daisy, yoo-hoo” são lidos como camada performática que encobre tensão emocional profunda. A terceira leitura, talvez a mais recorrente, entende o vídeo como resposta direta ao passado artístico da cantora. Se antes ela assumia a persona de Plath em tempo integral, agora ressignifica o forno como objeto doméstico que produz alimento e cuidado.
Há ainda um dado relevante: o caráter familiar da produção. O clipe inclui colaboração de Chuck Grant e Jason Pickens, reforçando o tom íntimo do projeto. A estética lo-fi remete aos primeiros vídeos da era Lizzy Grant, criando um arco simbólico que liga início de carreira e maturidade artística. A diferença é que, agora, o drama é encenado com distanciamento crítico.
“White Feather Hawk Tail Deer Hunter” funciona, portanto, como estudo de identidade. Lana revisita a tradição confessional feminina, dialoga com a tragédia de Sylvia Plath e, ao mesmo tempo, reorganiza sua própria narrativa pública. O forno deixa de ser somente símbolo de morte e passa a representar escolha, memória e controle simbólico da própria história.
Mais do que homenagem literária, a música e o clipe apresentam uma tese estética. A artista reconhece o fascínio cultural pela mulher que sofre, mas desloca esse imaginário para um território de estabilidade doméstica construída sob seus próprios termos.
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