Após sete anos desde seu álbum de estreia, “Selma” (2018), o cantor, compositor e multi-instrumentista Lauckson Melo, que assina como Lau e Eu, lança “feroz comum silêncio entre nós…”. O album chegou às plataformas em 24 de julho pelo selo Soho Music Records e marca um novo momento na trajetória do artista sergipano de 27 anos, hoje radicado em São Paulo.
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O silêncio, tema que estrutura a obra, surge tanto como reflexão íntima quanto como leitura social. Para Lau, o silêncio é expressão de um tempo histórico, atravessado por conflitos, isolamento e apagamentos. “O sentido se constrói a partir do silêncio e do não dito. Percebi que muita coisa não se resolve conversando e quis retratar esse sentimento com o álbum”, explica.
O repertório mistura lo-fi, R&B e referências do bolero cubano. Em “o sonho de Minelle…”, parceria com menino thito, Lau retrata as marcas de um relacionamento. “limitações…” aborda os limites da reciprocidade afetiva, enquanto “três e tantas…” fala sobre reencontros e histórias interrompidas. Já em “coivara do sono…”, faixa inspirada no livro “Coivara da Memória”, de Francisco J. C. Dantas, o silêncio aparece como metáfora de relações afetivas marcadas pela ausência.
O disco também questiona conceitos de mercado. Ao definir o trabalho como world music, Lau tensiona a ideia do gênero e reivindica sua posição de artista brasileiro em um contexto global desigual. “Minha música é do terceiro mundo, feita a partir da experiência de um rapaz negro nascido na capital do menor estado do Brasil que imigrou para a metrópole”, afirma.
Na entrevista a seguir, Lau fala sobre o silêncio como sintoma social, o lugar do fracasso em sua obra e o desafio de permanecer independente.
A ideia de que “muita coisa não se resolve conversando” conduz o disco inteiro. Como foi pra você traduzir esse silêncio em som, letra e produção sem cair na armadilha de tentar preencher esse vazio?
“Acho que tentar preencher o vazio é inevitável, alguns fazem álbuns, outros escrevem matérias para cadernos de cultura, é sempre um jeito de dar contorno a essa coisa que decidimos chamar de vida, então não creio que seja uma armadilha, ainda assim podemos estar em perigo, afinal, estamos vivos.
No caso do álbum: minha criação é sempre muito auto referente, e não acho que isso seja um problema, acho que negar essa auto referência seria o problema real. Então, saúdo o vazio que há em nós, ele é extremamente necessário.“
Você enxerga o silêncio como um sintoma do capitalismo tardio, mas também como algo íntimo e quase existencial. De que forma esse silêncio te atravessa hoje como artista, como estudante de História e como homem negro migrante no Brasil?
“É um dos sintomas. Nesse contexto da história do capitalismo, o silêncio aparece como apagamento, é uma das formas mais eficazes de violência, dita o silêncio quem tem a palavra! Então o silêncio aparece como o mecanismo de poder daquele que detém a fala, mas não só, daquele que pode ser ouvido.
O silêncio no contexto artístico de alguém que saiu de Aracaju e foi morar em São Paulo com dezoito anos (e agora tem vinte e sete) é central. Principalmente porque Sergipe, assim como parte significativa dos estados fora do sul/sudeste (com exceção de Bahia e Recife) são quase inexistentes no imaginário nacional. Então temos de ficar sob o guarda chuva de uma espécie de identidade “nordestina” ou “nortista” que precisa se moldar ao olhar sudestino.
Nesse sentido, por questões históricas e econômicas, há um apagamento dessas comunidades e desses locais, e por consequência, dos sujeitos e das histórias que surgem dessas particularidades. O silêncio que me abate é o mesmo que abate a maioria do país.“
Em sete anos, você passou por transformações radicais: geografias, amores, estéticas. Como você encara o ato de lançar um álbum nesse tempo-espaço tão alterado? Qual parte de Lau ainda habita esse “eu” de agora?
“Olha, eu abri mão da “cartilha neoliberal do artista independente”, era muito mais difícil quando meu único horizonte era a música, porque se você vive só de música, essa cartilha parece ser a única possibilidade.
E com essa cartilha estou falando de todo um discurso meritocrático que cria soluções fáceis para problemas complexos, como por exemplo a ideia de que “se você tiver um bom planejamento e um bom material seu lançamento será bem sucedido”; esse discurso que os coaches da indústria costumam falar desconsiderando o contexto histórico e social do nosso país e das pessoas que vivem nele.
De certa forma eu entendo, são pessoas do mercado, eles não têm a obrigação de pensar como historiadores ou sociólogos, por isso faço esse contraponto ao discurso neoliberal na música dita “independente”.
O “eu” que habita é aquele que cria porque está vivo, é isso o que permanece, sem romantismo, sem muita distinção, alguém como tantos outros fazendo música na periferia da periferia, não sei bem porque continuo fazendo e acho que gosto disso.“
A ideia de world music é muitas vezes associada a exotismos ou ao mercado europeu. Quando você diz que sua música é do “terceiro mundo”, você está tensionando esse conceito. Pode aprofundar essa provocação?
“Costumo dizer que pra um gringo médio, você, eu e a maioria das pessoas que estão lendo esta matéria são macacos, baratas, sub-humanos. Não estou falando do gringo que vem morar no Brasil, estou falando da média.
Daquelas pessoas que nasceram e vão passar a vida inteira na França, na Alemanha, Suíça ou nos Estados Unidos. Para boa parte dessa gente não existe muita diferença entre um indiano, um paquistanês e um brasileiro, é tudo a mesma coisa, é isto que está posto, considero importante falar das coisas nesses termos.
Precisamos abolir essa ingenuidade que o colonialismo neoliberal coloca na gente, de que a cultura brasileira é valorizada lá fora, que a Taylor Swift ama o Brasil, etc. É o puro suco da demagogia, é a barata sonhando com o chinelo.“
Em “coivara do sono…”, você transforma uma reprovação acadêmica em nome de faixa e de álbum. Isso diz muito sobre a forma como você ressignifica fracassos. Qual o peso da recusa e do tropeço na sua composição artística?
“Penso que o meu fracasso é similar ao fracasso da maioria dos artistas, não existe nada de muito particular; é assim que eu lido com o fracasso, não o individualizo.
É como ter problema no aeroporto, você está sozinho com as suas malas e se sente injustiçado pelo atraso do voo e a falta de informação, mas quando vai reclamar no guichê percebe que existem pessoas com problemas muito maiores que o seu: gente que tá viajando com a família, mãe que perdeu o filho no aeroporto, e você lá com suas malas cheias de narcisismo e um sentimento de auto-indulgência.
Também tento entender qual parte me cabe, por que o chamo de fracasso? Soa como uma coisa dada, né? “Você fracassou!” é algo que se coloca enquanto fim, e pensando bem, acho que o fracasso é o meio, o verdadeiro fracassado é aquele que não assume o próprio desejo e vive em denegação, o que alguns chamam de “covardia moral”. Fracassar, pra mim, é não começar.“
Essa primeira parte do álbum já é intensa, poética, fragmentada. O que podemos esperar da segunda parte? O silêncio continua, ou ele vai encontrar alguma resposta?
“Acho que nessa segunda parte abordo outros tipos de silêncios, alguns menos sérios, outros mais políticos. Quando concebi esse trabalho ele não seria dividido em duas partes, então acho que o que vem segue o fluxo do que já está.
Esse silêncio feroz é dialético, ele não é bom nem ruim, ele apenas é. Adoro um álbum chamado “How can we be joyful in a world full of knowledge” (Como podemos ser felizes em um mundo cheio de conhecimento?) do Bruno Pernadas, é uma espécie de oposto simétrico, o silêncio pode ser feroz, mas o excesso de fala também, a questão que fica é: como podemos ser felizes?“
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