Há 12 anos, uma parceria entre U2 e Apple protagonizava um dos episódios mais comentados da relação entre música e tecnologia. Em setembro de 2014, o álbum “Songs of Innocence” apareceu gratuitamente nas bibliotecas de milhões de usuários do iTunes ao redor do mundo, sem que eles precisassem solicitar ou aceitar previamente o disco.

A ação foi anunciada em 9 de setembro de 2014, durante um evento da Apple que também apresentou o iPhone 6 e o Apple Watch. O U2 participou da apresentação e, ao final, comunicou que seu novo trabalho de estúdio seria disponibilizado gratuitamente para clientes da empresa.
A escala da distribuição era um dos principais elementos da campanha. “Songs of Innocence” foi disponibilizado para mais de 500 milhões de contas do iTunes, fazendo com que o lançamento alcançasse imediatamente uma audiência que dificilmente seria possível por meio de uma distribuição convencional.
O problema estava justamente na maneira como isso aconteceu. Em vez de simplesmente disponibilizar o álbum gratuitamente para quem tivesse interesse, a Apple adicionou o disco automaticamente às bibliotecas dos usuários. Nos dispositivos configurados para realizar downloads automáticos de compras, as músicas também poderiam ser transferidas para o aparelho.
A decisão rapidamente provocou reclamações. Parte dos usuários questionou a presença de um conteúdo que não havia solicitado em sua biblioteca, enquanto outros tiveram dificuldades para remover definitivamente o álbum de suas contas. O que havia sido apresentado como um presente passou a ser discutido também como uma questão relacionada ao controle dos usuários sobre suas próprias bibliotecas digitais.
A repercussão chegou ao ponto de a Apple disponibilizar uma ferramenta específica para remover “Songs of Innocence” das contas. O recurso permitia excluir o álbum associado ao Apple ID, oferecendo uma solução para quem não queria manter o lançamento em sua coleção.
A campanha envolveu ainda um investimento significativo. Na época, reportagens apontaram que a Apple destinou cerca de US$ 100 milhões à campanha de marketing relacionada ao álbum, além dos acordos comerciais envolvendo a distribuição exclusiva do trabalho.
Para o U2, “Songs of Innocence” representava o primeiro álbum de inéditas desde “No Line on the Horizon”, de 2009. Produzido por nomes como Danger Mouse, Paul Epworth, Ryan Tedder, Declan Gaffney e Flood, o disco trazia músicas como “The Miracle (of Joey Ramone)”, “Every Breaking Wave”, “Song for Someone” e “Iris (Hold Me Close)”.
A reação negativa à estratégia também levou Bono a se desculpar publicamente. Em outubro de 2014, durante uma conversa com fãs, o vocalista reconheceu os problemas da iniciativa após ser questionado sobre a disponibilização automática do álbum. Anos depois, o cantor voltou ao episódio em sua autobiografia “Surrender: 40 Songs, One Story” e assumiu responsabilidade pela ideia.
Segundo o próprio músico, ele havia defendido junto a Tim Cook, então CEO da Apple, um modelo no qual a empresa pagaria pelo álbum para que o público pudesse recebê-lo gratuitamente. A ambição era ampliar drasticamente o alcance do novo trabalho do U2, mas a execução acabou transformando a campanha em uma das ações mais controversas da história da distribuição digital de música.
Apesar das críticas, “Songs of Innocence” continuou seu lançamento tradicional posteriormente, chegando às lojas em formatos físicos em outubro de 2014. O álbum também ganhou uma turnê própria no ano seguinte, a “Innocence + Experience Tour”.
Doze anos depois, a distribuição de “Songs of Innocence” permanece como um dos episódios mais lembrados da era do iTunes. A ação conseguiu colocar um álbum do U2 diante de centenas de milhões de pessoas simultaneamente, mas também mostrou como a diferença entre oferecer um conteúdo gratuitamente e adicioná-lo automaticamente à biblioteca dos usuários poderia transformar uma campanha musical de enorme alcance em uma controvérsia internacional.
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