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Limp Bizkit encerra turnê na América Latina com show sólido em São Paulo

Texto: Ygor Monroe
21 de dezembro de 2025
em Shows

O show do Limp Bizkit no Allianz Parque, em 20 de dezembro de 2025, funciona melhor quando analisado fora da lógica do entretenimento descartável e inserido em um contexto mais amplo de permanência cultural. Ao encerrar a “Loserville Tour” em São Paulo, a banda entregou um espetáculo que reafirma algo já sedimentado pelo tempo: o Limp Bizkit nunca foi uma moda passageira, mas um organismo vivo dentro da música pesada, com códigos próprios, contradições assumidas e uma relação direta com um público que envelheceu junto com o grupo.

Limp Bizkit encerra turnê na América Latina com show sólido em São Paulo
Foto: Reprodução/30e – @bmaisca

Embora frequentemente associado ao nu metal, o Limp Bizkit sempre operou a partir de uma postura essencialmente punk, tanto estética quanto estrutural. A recusa ao refinamento excessivo, o flerte constante com o deboche, a apropriação irreverente da cultura pop e a frontalidade no palco seguem intactas. O estádio lotado confirma essa leitura. O público sabia exatamente o que iria encontrar e respondeu com maturidade, entrega e consciência histórica.

O formato da noite, estruturado como um minifestival, reforçou essa percepção. Slay Squad, Riff Raff, Ecca Vandal, 311 e Bullet For My Valentine não atuaram apenas como atrações de abertura, mas como partes de um mesmo ecossistema sonoro. A curadoria evidencia a visão do Limp Bizkit sobre música pesada como território híbrido, onde rap, metal, groove, eletrônica e cultura de rua coexistem sem hierarquia. Essa lógica acompanha o grupo desde sua formação, em Jacksonville, em 1994.

A homenagem a Sam Rivers estabelece o eixo emocional do show sem recorrer a sentimentalismo. O vídeo exibido antes da entrada da banda, com imagens de arquivo e mensagens diretas, ancora a apresentação em respeito e memória. Rivers foi peça estrutural da identidade sonora do grupo, e a decisão de seguir com a turnê após sua morte carrega peso simbólico. Não se trata de ignorar a perda, mas de incorporá-la à narrativa do espetáculo. Richie Buxton assume o baixo com competência e discrição, garantindo continuidade sem tentar substituir uma presença histórica.

A partir daí, o show assume sua forma definitiva. O Limp Bizkit entrega um set tecnicamente bem estruturado, pensado para controlar fluxo, impacto e respiro. A escolha de abrir e encerrar com “Break Stuff” revela domínio absoluto da própria narrativa. A faixa funciona como manifesto, provocação e espelho do público. Poucas bandas sustentam esse tipo de repetição sem cair no vazio. Aqui, faz sentido, pois dialoga com o conceito de caos controlado que sempre definiu o grupo.

O repertório privilegia os álbuns “Three Dollar Bill, Y’all$”, “Significant Other” e “Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water”, não por nostalgia gratuita, mas porque essas obras concentram a linguagem que consolidou o Limp Bizkit como fenômeno cultural. Faixas como “Nookie”, “My Generation”, “Rollin’”, “Take a Look Around” e “Full Nelson” seguem funcionando ao vivo por uma razão simples: são músicas estruturalmente eficazes, pensadas para o confronto direto entre palco e plateia.

Os mashups e interlúdios conduzidos por DJ Lethal, que misturam Metallica, UB40, KC and the Sunshine Band e outros nomes, reforçam a lógica punk do grupo. A coerência estética clássica nunca foi o objetivo; o que interessa é a fricção. O Limp Bizkit sempre operou nesse atrito entre referências, e o show assume isso sem pedir permissão. Fred Durst, distante da caricatura que por anos lhe foi atribuída, atua como condutor de energia. Sua presença é econômica, direta e eficiente, sem discursos excessivos, apenas comando de palco.

Momentos como a participação da fã Bia em “Full Nelson” funcionam justamente por surgirem de forma orgânica, sem aparência de encenação pré-fabricada. A reação do público confirma a autenticidade da experiência. Nada soa planejado para agradar algoritmos ou gerar recortes virais; tudo acontece no tempo real da apresentação.

Tecnicamente, a banda entrega um som sólido e pesado, bem resolvido para um estádio. Wes Borland segue como peça fundamental, não apenas pelo visual, mas pela inteligência rítmica e textural de suas guitarras. John Otto sustenta o groove com precisão, e DJ Lethal permanece como elemento estruturante da sonoridade, nunca decorativo. O conjunto soa coeso, consciente de suas limitações e de suas forças.

O encerramento, com todas as bandas reunidas no palco durante “Break Stuff”, transforma o final em celebração coletiva, e não em catarse vazia. É uma afirmação de pertencimento, de cena e de continuidade. O Limp Bizkit encerra 2025 ocupando um espaço que poucos imaginariam possível duas décadas atrás: o de atração de estádio, relevante, funcional e respeitada por um público adulto que compreende a linguagem da música pesada.

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Temas: CríticaLimp BizkitResenhaReviewShows

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