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Macklemore, Pink, Ed Sheeran e Palestina: entenda a polêmica que tomou a indústria musical

Texto: Ygor Monroe
16 de setembro de 2026
em Música

Uma apresentação de abertura, duas palavras gritadas diante de um estádio lotado e uma discussão que, em poucos dias, atravessou os limites de um show para envolver Macklemore, Ed Sheeran, Pink, proprietários de alguns dos maiores estádios dos Estados Unidos, uma das principais promotoras de turnês do país e os artistas convidados para a “Loop Tour”.

Macklemore, Pink, Ed Sheeran e Palestina: entenda a polêmica que tomou a indústria musical
Macklemore, Pink, Ed Sheeran e Palestina: entenda a polêmica que tomou a indústria musical

Se você abriu as redes sociais nos últimos dias e encontrou uma publicação dizendo que Pink teria sido responsável pela saída de Macklemore da turnê de Ed Sheeran, outra acusando Sheeran de demitir o rapper por apoiar a Palestina e uma terceira mostrando Finneas abandonando a excursão, é compreensível que a história tenha parecido confusa. Isso acontece porque a crise possui diferentes capítulos e, principalmente, diferentes versões sobre aquilo que ocorreu nos bastidores.

O que começou com discursos de Macklemore durante os shows de Ed Sheeran no MetLife Stadium, em Nova Jersey, rapidamente provocou críticas de organizações pró-Israel, manifestações públicas de Pink e pressão de proprietários de estádios. Depois vieram a retirada oficial do rapper da turnê, os posicionamentos de Macklemore e Sheeran e, finalmente, a saída de outros artistas que participariam da excursão. Para entender como tudo chegou a esse ponto, é necessário voltar aos primeiros shows de setembro.

O primeiro capítulo aconteceu no MetLife Stadium

Macklemore estava entre os artistas convidados para abrir apresentações da “Loop Tour”, de Ed Sheeran, nos Estados Unidos. Nos dias 4 e 5 de setembro de 2026, o rapper subiu ao palco do MetLife Stadium, em Nova Jersey, e utilizou parte de seu espaço para defender publicamente os palestinos.

A manifestação não surgiu repentinamente na carreira do artista. Macklemore já vinha se posicionando publicamente sobre a guerra em Gaza e lançou, em 2024, “Hind’s Hall”, música inspirada pelos protestos universitários pró-Palestina realizados nos Estados Unidos. No MetLife, porém, esse ativismo ganhou a dimensão de uma turnê de estádio comandada por um dos maiores artistas pop do mundo.

Durante sua participação, Macklemore pediu uma “Palestina livre”, falou sobre Gaza e a Cisjordânia e apresentou “Hind’s Hall” enquanto imagens relacionadas à destruição em Gaza apareciam nos telões. O rapper também procurou estabelecer uma separação entre suas críticas ao governo e às ações militares de Israel e a população judaica. Em uma das apresentações, dirigiu-se diretamente às pessoas judias presentes e afirmou que sua mensagem buscava igualdade, dignidade e liberdade para todos.

A manifestação dividiu reações. Enquanto parte do público apoiou Macklemore e defendeu que artistas historicamente utilizam seus palcos para discutir questões sociais e políticas, outras pessoas presentes criticaram a introdução daquele discurso em um show de Ed Sheeran. A repercussão rapidamente deixou as arquibancadas e passou a mobilizar organizações fora do ambiente da turnê.

O Israeli American Council lançou uma petição pedindo que Macklemore fosse retirado das apresentações restantes. A organização argumentou que o problema não seria o direito do rapper de possuir opiniões políticas, mas o uso de um show de outro artista para promover aquilo que classificou como uma abordagem unilateral do conflito. A partir daquele momento, uma manifestação realizada durante um ato de abertura começava a se transformar em uma discussão muito maior para toda a turnê.

E então Pink entrou na história

É justamente neste ponto que uma parte importante da cronologia costuma se perder. Pink não iniciou a controvérsia e não existe evidência pública de que tenha tomado a decisão de retirar Macklemore da turnê.

A cantora entrou no episódio depois que as declarações do rapper já estavam repercutindo. Pink, que tem origem judaica, compartilhou nas redes sociais uma publicação crítica à apresentação de Macklemore que defendia sua retirada da “Loop Tour”. A publicação foi suficiente para abrir uma segunda frente na discussão e colocou outra grande estrela da música internacional no centro da repercussão.

Pink recebeu uma enorme quantidade de críticas e posteriormente divulgou um posicionamento muito mais extenso para explicar por que havia reagido daquela maneira. A cantora reconheceu que simplesmente compartilhar uma postagem de terceiros havia sido uma maneira rápida e pouco elaborada de abordar um assunto complexo.

Em sua explicação, Pink relacionou sua reação à própria experiência como mulher judia e mãe. Para ela, determinadas partes da apresentação de Macklemore poderiam provocar medo em famílias judaicas presentes em um ambiente no qual não esperavam encontrar aquele tipo de manifestação. Ao mesmo tempo, a cantora deixou claro que sua defesa da segurança de pessoas judias não significava concordância irrestrita com as ações do governo israelense e também falou sobre o direito dos palestinos à segurança e a um futuro.

Essa diferença se tornou especialmente importante quando Pink passou a ser tratada em algumas discussões nas redes sociais como responsável direta pelo que aconteceria posteriormente com Macklemore. A cronologia disponível, entretanto, não sustenta uma explicação tão simples. Pink amplificou publicamente as críticas ao rapper, mas a decisão que posteriormente o retiraria da turnê passou por outra frente, ligada aos locais onde os shows aconteceriam e à promotora responsável pela excursão.

Robert Kraft entra na história e a situação muda de tamanho

O próximo capítulo envolve Robert Kraft, empresário bilionário, proprietário do New England Patriots e ligado ao Kraft Group, responsável pelo Gillette Stadium, em Massachusetts, local que receberia a “Loop Tour”.

Segundo Macklemore, Ed Sheeran informou a ele que Kraft havia entrado em contato e comunicado que o rapper não poderia se apresentar no Gillette Stadium. Macklemore afirma ainda que outros proprietários de estádios passaram a adotar posições semelhantes. É importante, entretanto, separar neste ponto aquilo que foi confirmado publicamente daquilo que permanece como relato de uma das partes envolvidas.

Kraft efetivamente se posicionou sobre o episódio e defendeu a decisão de não oferecer espaço a Macklemore, relacionando sua posição ao combate ao que considera discurso de ódio. Macklemore rejeita essa interpretação e afirma que sua defesa dos direitos palestinos não representa hostilidade contra pessoas judias. Já a alegação de que Kraft teria articulado pessoalmente um movimento entre diversos proprietários para retirar o rapper da turnê foi apresentada por Macklemore ao relatar os acontecimentos e não possui confirmação independente de todos os seus detalhes.

Existe, porém, uma confirmação fundamental para compreender o que aconteceu depois. A Messina Touring Group, promotora responsável pela etapa norte-americana da “Loop Tour”, afirmou ter sido informada por locais das próximas apresentações de que eles não aceitariam a realização dos shows com Macklemore no line-up. Segundo a empresa, manter o rapper poderia provocar o cancelamento das apresentações e afetar centenas de milhares de pessoas.

Diante desse cenário, Macklemore foi retirado das datas restantes em que participaria da turnê. A discussão, portanto, deixava definitivamente de envolver apenas aquilo que havia sido dito em um palco e passava a colocar na mesma equação contratos, arenas, centenas de milhares de ingressos e uma excursão multimilionária.

Mas foi Ed Sheeran quem demitiu Macklemore?

Essa é outra parte da história em que as versões precisam ser apresentadas cuidadosamente. Macklemore inicialmente escreveu que Ed Sheeran e sua equipe haviam decidido removê-lo da “Loop Tour”. Ao desenvolver seu relato, porém, o próprio rapper descreveu a pressão exercida pelos locais das apresentações e disse compreender a dimensão da situação enfrentada pelo amigo.

Ed Sheeran, por sua vez, afirmou posteriormente que a retirada de Macklemore foi uma decisão da promotora, e não dele. O britânico disse que Macklemore havia pedido para participar da turnê e que aceitou por respeitá-lo como artista. Segundo Sheeran, os convidados também tinham liberdade para escolher o repertório que apresentariam, e ele teria tentado intervir nos bastidores quando a permanência do rapper passou a ser questionada.

A explicação, entretanto, não encerrou a discussão. Pelo contrário, o posicionamento de Sheeran abriu outro debate sobre até onde vai a responsabilidade de um artista principal pelas decisões tomadas dentro de uma turnê que leva seu nome.

A posição de Ed Sheeran virou uma nova controvérsia

Ao explicar sua postura, Sheeran disse estar horrorizado com o sofrimento provocado pelo conflito e classificou a situação humanitária como uma tragédia. Também explicou que costuma manter uma posição publicamente apolítica em seu trabalho e que procura fazer de seus shows espaços nos quais públicos de diferentes origens possam se sentir seguros.

Essa explicação provocou críticas, inclusive de Macklemore. Os dois artistas possuem uma relação de mais de uma década, e o rapper deixou claro que a divergência política não apagava essa amizade. Ainda assim, questionou a possibilidade de neutralidade diante da situação enfrentada pelos palestinos e argumentou que consequências profissionais e comerciais sofridas por artistas não poderiam ser comparadas ao sofrimento das pessoas diretamente atingidas pela guerra.

Nas redes sociais, outra discussão começou a surgir: seria coerente Sheeran se definir profissionalmente como apolítico quando já havia se manifestado anteriormente sobre questões sociais e decisões de governos? O questionamento existe, mas também exige contexto. Ser “apolítico” no sentido utilizado pelo cantor não necessariamente significa nunca ter manifestado qualquer opinião sobre políticas públicas ou questões sociais.

Sheeran já criticou, por exemplo, a falta de investimento governamental britânico em educação musical e nas artes. O ponto apresentado por ele agora é que evita transformar seus shows em plataformas de posicionamento sobre conflitos políticos. Se essa postura representa neutralidade genuína ou uma escolha política por si só passou a fazer parte do debate público, mas isso é diferente de afirmar como fato que o cantor tenha mentido sobre sua posição.

Macklemore também possui um histórico de ativismo muito anterior à Palestina

Para entender por que o rapper não simplesmente abandonou o assunto depois da repercussão, também é necessário olhar para sua própria trajetória. Macklemore construiu uma parte considerável de sua carreira abordando questões sociais e utilizando músicas, entrevistas e apresentações para defender determinadas causas.

“Same Love”, lançada no período de “The Heist”, colocou a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo e críticas à homofobia no centro de uma música que alcançou enorme sucesso comercial em uma época na qual o casamento igualitário ainda não era reconhecido em todos os Estados Unidos.

Posteriormente, em “White Privilege II”, Macklemore discutiu racismo estrutural, Black Lives Matter e sua própria posição como homem branco bem-sucedido dentro de um gênero musical criado e desenvolvido majoritariamente por artistas negros. Seu ativismo também recebeu críticas ao longo dos anos, incluindo debates sobre privilégio, apropriação e os limites de um artista branco assumir protagonismo em determinadas discussões.

A Palestina se tornou outra frente importante desse posicionamento público. Com “Hind’s Hall”, Macklemore aproximou sua produção musical diretamente das manifestações pró-Palestina e passou a utilizar apresentações, entrevistas e redes sociais para defender a população palestina e criticar as ações israelenses em Gaza.

Portanto, aquilo que aconteceu no palco de Ed Sheeran não representou uma mudança repentina de personalidade ou estratégia. Foi a continuidade, agora dentro de uma estrutura comercial gigantesca, de um posicionamento que Macklemore já vinha mantendo publicamente.

Então veio o efeito dominó

Se a retirada de Macklemore poderia ter encerrado a crise, aconteceu exatamente o contrário. Outros artistas escalados para participar da “Loop Tour” começaram a anunciar suas próprias saídas, transformando uma decisão envolvendo um ato de abertura em um problema consideravelmente maior para a excursão.

Aaron Rowe foi um deles. O músico irlandês afirmou que não poderia permanecer na turnê diante do que considerava uma tentativa de pessoas extremamente poderosas de silenciar manifestações em defesa dos palestinos.

A banda irlandesa Beoga também deixou a excursão. A saída tinha um impacto adicional porque o grupo não funcionava apenas como atração convidada, participando também de momentos do próprio espetáculo de Ed Sheeran e acompanhando musicalmente partes da apresentação.

Depois veio Finneas. O cantor e produtor anunciou que não participaria mais das datas para as quais estava escalado e manifestou apoio aos palestinos. Sua decisão ganhou ainda mais repercussão porque suas apresentações aconteceriam na etapa sul-americana da turnê, prevista para o final de 2026.

Lukas Graham também anunciou sua retirada. Com isso, os atos de abertura que permaneciam programados para acompanhar diferentes trechos da “Loop Tour” comunicaram suas desistências após a saída de Macklemore, e a história que havia começado com um artista perdendo algumas apresentações se transformou em uma crise muito maior para a estrutura da excursão.

E onde Pink fica depois de tudo isso?

Curiosamente, em uma posição muito menos central do que algumas discussões nas redes sociais fazem parecer. Pink foi uma personagem importante porque sua publicação aumentou a repercussão e colocou outra grande estrela da música no debate. Seu posicionamento também abriu uma discussão própria sobre antissemitismo, segurança de pessoas judias e os limites entre críticas ao Estado de Israel e hostilidade contra judeus.

Mas não há evidência pública de que Pink tenha possuído poder contratual para retirar Macklemore da “Loop Tour” ou que a decisão tenha sido tomada por ela. A pressão decisiva descrita pela própria promotora veio dos locais que receberiam os próximos shows.

A sequência dos acontecimentos ajuda a compreender melhor essa diferença: Pink criticou Macklemore e amplificou uma manifestação contrária à permanência dele na turnê, organizações pró-Israel pressionaram por sua retirada, Robert Kraft confirmou sua oposição à presença do rapper em seu estádio, Macklemore afirmou que Kraft mobilizou outros proprietários e a promotora confirmou que diferentes locais recusavam receber a turnê caso ele permanecesse na programação. Ed Sheeran, por sua vez, afirma que tentou impedir a retirada e que a decisão final não foi sua. Depois disso, outros artistas decidiram abandonar suas próprias participações.

A história também não é simplesmente uma briga entre Macklemore e Ed Sheeran

Talvez esse seja o ponto que mais tenha se perdido quando toda a situação foi reduzida a manchetes e publicações nas redes sociais. Macklemore não apresentou Ed Sheeran simplesmente como um inimigo. Ele falou sobre a amizade entre os dois e reconheceu a posição extremamente complicada na qual a turnê havia sido colocada.

Sheeran também não repudiou publicamente Macklemore como artista nem afirmou que o rapper deveria ser impedido de defender suas posições fora da excursão. O que existe entre os dois é uma divergência fundamental sobre o papel de um artista diante de uma crise política e humanitária.

Macklemore defende que sua plataforma precisa ser utilizada mesmo quando isso produz consequências comerciais. Sheeran sustenta que prefere construir pontes de maneira privada e manter seus shows distantes de posicionamentos políticos que possam dividir o público. Ao redor deles, a indústria acrescentou outra dimensão ao problema, já que uma turnê de estádios depende de promotores, proprietários, contratos, equipes e locais dispostos a receber cada apresentação.

Foi justamente nesse encontro entre ativismo, liberdade artística, responsabilidade pública e poder econômico que a crise ganhou uma dimensão muito maior do que a relação entre dois artistas.

Com os atos de abertura anunciando suas saídas, a “Loop Tour” passou a precisar reorganizar parte de sua programação. Ed Sheeran enfrenta críticas de diferentes públicos, Macklemore transformou sua retirada em uma nova defesa de seu posicionamento, Pink continua recebendo reações pelo papel que assumiu no debate e a atuação dos proprietários dos estádios passou a ser analisada com muito mais atenção.

No meio de tantas celebridades, acusações e comunicados, uma observação feita pelo próprio Macklemore ajuda a recolocar a proporção da história no lugar. O rapper ressaltou que nenhum dos artistas envolvidos enfrenta pessoalmente as consequências vividas pelas populações diretamente atingidas pela guerra e que as pessoas afetadas pelo conflito não podem desaparecer no meio de uma discussão sobre carreiras milionárias.

É justamente por isso que entender a cronologia importa. Macklemore não saiu da turnê simplesmente porque Pink publicou algo, assim como não existe base para resumir todo o episódio dizendo apenas que Ed Sheeran decidiu demiti-lo por defender a Palestina.

O que aconteceu foi uma sequência muito mais complexa. Um posicionamento político no palco provocou reação pública, organizações pressionaram pela retirada do rapper, proprietários de locais passaram a rejeitar sua presença, a promotora decidiu removê-lo diante da possibilidade de cancelamentos, Ed Sheeran afirmou ter tentado reverter a situação e outros artistas responderam abandonando suas próprias participações.

Em poucos dias, a “Loop Tour” deixou de ser apenas uma das maiores turnês pop de 2026 e passou a ocupar o centro de uma discussão que ultrapassa seus próprios shows. No fim, o caso colocou indústria, artistas e público diante de uma pergunta que não possui resposta simples: quem realmente controla aquilo que pode ser dito quando música, posicionamento político e milhões de dólares dividem o mesmo estádio?

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Temas: Ed SheeranMacklemorePink

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