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“O Agente Secreto” vence o Globo de Ouro e se torna um marco do cinema brasileiro

O cinema brasileiro entrou em 2026 com um feito que já nasce histórico. O Agente Secreto” venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa, superando produções que chegavam como favoritas absolutas e colocando novamente o Brasil no centro da conversa global sobre cinema. O prêmio, anunciado na noite deste domingo, transformou o longa de Kleber Mendonça Filho em um símbolo de algo maior do que uma vitória isolada. Trata-se de um reconhecimento que dialoga com décadas de luta por espaço, visibilidade e autonomia criativa dentro de uma indústria que historicamente olhou para o Brasil com exotismo, quando olhava.

O Agente Secreto” vence o Globo de Ouro e se torna um marco do cinema brasileiro

Na disputa estavam títulos que dominaram festivais, debates críticos e apostas da temporada, como “Valor Sentimental”, da Noruega, “Foi Apenas um Acidente”, da França, “No Other Choice”, da Coreia do Sul, “A Voz de Hind Rajab”, da Tunísia, e “Sirât”, da Espanha. O fato de “O Agente Secreto” ter superado essa lista pesada revela o alcance e a força do filme, que já vinha construindo uma trajetória sólida desde sua estreia internacional.

Essa vitória também carrega um peso simbólico poderoso. É a segunda vez que um filme brasileiro conquista o Globo de Ouro nessa categoria, algo que só havia acontecido com “Central do Brasil”, em 1998. O Brasil também aparece no histórico com “Orfeu Negro”, vencedor em 1960, embora o troféu tenha ficado oficialmente com a França. Agora, mais de duas décadas depois, “O Agente Secreto” resgata esse protagonismo de forma direta, contemporânea e politicamente carregada.

O caminho até aqui foi pavimentado por prêmios importantes. No Festival de Cannes, Kleber Mendonça Filho levou o troféu de melhor diretor e Wagner Moura venceu como melhor ator, dois reconhecimentos que já sinalizavam que o filme estava em outro patamar de recepção crítica. Em seguida, veio o Critics Choice Awards, onde “O Agente Secreto” conquistou o prêmio de melhor filme estrangeiro, consolidando sua posição como uma das obras mais relevantes da temporada.

Agora, o horizonte aponta para o Oscar. A expectativa é que o filme apareça entre os indicados a melhor filme internacional e que Wagner Moura dispute uma vaga como melhor ator, algo que ampliaria ainda mais o alcance simbólico dessa trajetória. A lista oficial de indicados será divulgada em 22 de janeiro, mas o que já se desenha é um cenário raro em que o cinema brasileiro deixa de ser uma nota de rodapé para se tornar protagonista.

Dentro da tela, “O Agente Secreto” é um filme que se constrói na contramão do espetáculo fácil. Ambientado no Brasil de 1977, ele acompanha Marcelo, vivido por Wagner Moura, um homem em fuga que retorna a Recife carregando um passado que o filme escolhe esconder. Esse silêncio narrativo funciona como comentário político, porque naquele Brasil, falar demais significava risco. O que se omite, sobrevive.

Recife, sob o olhar de Kleber Mendonça Filho, surge como uma cidade que observa, registra e vigia. O espaço urbano vira uma extensão do aparato de repressão, um organismo vivo feito de fachadas, vizinhos atentos, corredores e ruídos que carregam mais ameaça do que qualquer cena de ação. O suspense do filme nasce justamente desse acúmulo de tensões quase invisíveis, desse cotidiano que parece normal enquanto algo apodrece por dentro.

A encenação se apoia em uma construção visual precisa, marcada por profundidades de campo que dividem a imagem, planos longos e cortes que criam desconforto. Nada aqui é neutro, porque tudo reflete um país fragmentado entre o que se mostra e o que se esconde. A montagem usa o tempo como ferramenta política, insistindo em pausas, silêncios e interrupções que forçam o espectador a habitar esse estado de vigilância permanente.

Wagner Moura entrega uma atuação que dialoga com essa proposta estética. Marcelo não se explica, não se expõe, não dramatiza o próprio trauma. O corpo do personagem carrega uma memória que nunca se organiza em discurso, apenas em gestos contidos, olhares calculados e uma exaustão que parece histórica, não pessoal. É uma performance que traduz uma geração inteira marcada pelo medo e pela tentativa de permanecer invisível.

“O Agente Secreto” também conversa diretamente com a própria trajetória de Kleber Mendonça Filho. Assim como em “Imagens de Fantasmas”, o diretor usa o cinema como instrumento de memória e resistência. Filmar vira um gesto político, uma forma de impedir que o apagamento se complete. Os prédios, as ruas, os interiores e os vazios compõem um mapa emocional de um país que tentou apagar sua própria consciência crítica.

No fim, o que o Globo de Ouro consagra é mais do que um grande filme. Consagra uma obra que transforma trauma histórico em linguagem cinematográfica, que entende o passado como algo que continua operando em segundo plano no presente. “O Agente Secreto” não grita, não explica, não simplifica. Ele se infiltra, como a própria ditadura que evoca, deixando marcas que demoram a cicatrizar.

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