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Ryan Murphy transforma Lizzie Borden em personagem de suas próprias obsessões

Texto: Ygor Monroe
17 de setembro de 2026
em Netflix, Séries, Streaming

Poucas figuras históricas parecem ter sido tão perfeitamente desenhadas para despertar a obsessão de Ryan Murphy quanto Lizzie Borden. Existe assassinato, família, ressentimento, repressão, julgamento público, versões contraditórias e uma mulher transformada em personagem pelo imaginário popular. O problema de “Monstro: A História de Lizzie Borden” é que Murphy encontra uma história construída sobre aquilo que ninguém conseguiu provar e parece imediatamente interessado em preencher cada espaço vazio.

Ryan Murphy transforma Lizzie Borden em personagem de suas próprias obsessões
Ryan Murphy transforma Lizzie Borden em personagem de suas próprias obsessões

É justamente aí que está minha principal resistência à nova temporada de “Monstro”. O caso Lizzie Borden não precisa que alguém resolva suas lacunas porque as lacunas são parte fundamental daquilo que mantém essa história fascinante mais de 130 anos depois.

Lizzie foi acusada pelos assassinatos do pai, Andrew Borden, e da madrasta, Abby Borden. Foi julgada e absolvida, mas a cultura popular cuidou de produzir uma condenação muito mais duradoura. Seu nome permanece associado aos crimes de uma maneira tão forte que separar a pessoa histórica da personagem construída posteriormente se tornou uma tarefa praticamente impossível.

Esse seria um território extraordinário para “Monstro”. Uma série poderia questionar justamente quanto da Lizzie que acreditamos conhecer realmente pertence à mulher que existiu e quanto foi fabricado por livros, jornais, filmes, séries, rumores e interpretações acumuladas durante mais de um século.

Ryan Murphy e Ian Brennan preferem outro caminho. A temporada utiliza as lacunas históricas como espaços nos quais pode construir uma versão própria de Lizzie, transformando possibilidades em acontecimentos e especulações em relações concretas. Não considero a ficcionalização um problema por si só. Estamos falando de uma dramatização, não de um documentário, e qualquer obra desse tipo inevitavelmente imagina diálogos, reorganiza acontecimentos e interpreta pessoas que não estão disponíveis para explicar suas próprias histórias.

A questão interessante não é perguntar se “Monstro” pode inventar. Evidentemente pode. A pergunta é o que a série faz com a responsabilidade de suas invenções.

Quando uma produção utiliza nomes reais, crimes reais e uma pessoa que efetivamente foi julgada e absolvida, aquilo que aparece diante da câmera possui um peso diferente. Uma hipótese histórica pode permanecer apenas como possibilidade durante décadas, mas bastam algumas cenas suficientemente convincentes para que determinada versão comece a ocupar o imaginário popular como se fosse memória. E Lizzie Borden já sofreu esse processo durante tempo suficiente.

Ella Beatty recebe justamente a difícil responsabilidade de interpretar uma mulher que precisa existir simultaneamente como pessoa, suspeita, vítima do julgamento social, possível assassina e projeção das próprias obsessões da série. Curiosamente, Beatty demonstra muito mais disposição para preservar a ambiguidade de Lizzie do que a narrativa ao seu redor.

Sua interpretação não tenta oferecer uma resposta confortável. Existe vulnerabilidade, estranheza e opacidade suficientes para impedir que a personagem seja reduzida facilmente a uma definição. O problema é que a temporada frequentemente coloca ao redor dessa performance uma quantidade enorme de situações destinadas a provocar, explicar ou sugerir respostas para aquilo que historicamente continua impossível de determinar.

Rebecca Hall também compreende perfeitamente o universo em que está trabalhando. Sua Abby Borden é grande, teatral e algumas vezes venenosa, mas existe controle dentro do exagero. Hall encontra humanidade em um registro que poderia facilmente virar caricatura e demonstra que extravagância não precisa significar ausência de precisão.

Sarah Paulson, por sua vez, aparece como Aileen Wuornos e acaba produzindo uma das contradições mais curiosas da temporada. Existe uma ligação temática possível entre duas mulheres transformadas em objetos de fascínio cultural por sua relação com a violência, mas a presença de Aileen algumas vezes parece muito mais uma maneira de “Monstro” conversar com sua própria obsessão pela fabricação social de figuras monstruosas.

Paulson é tão magnética que cria um problema involuntário: existem momentos em que a série sobre Lizzie Borden parece mais interessante quando decide olhar para outra mulher.

Tudo isso faz parte de uma questão maior que acompanha “Monstro”. A antologia gosta de perguntar quem são os monstros, quem recebe esse título e como determinadas pessoas acabam transformadas em símbolos culturais. É uma ideia interessante, mas existe o perigo de começar cada temporada com uma tese pronta e reconstruir a figura histórica até que ela consiga caber perfeitamente dentro dela.

Lizzie Borden resiste especialmente bem a isso porque sua história não oferece a resposta que uma narrativa tradicional gostaria de encontrar. Existe uma casa, existem dois assassinatos, existe uma acusação, existe uma absolvição e existe um espaço gigantesco entre aquilo que sabemos e aquilo que gostaríamos de saber. Foi justamente dentro desse espaço que nasceu a lenda.

Visualmente, “Monstro: A História de Lizzie Borden” continua demonstrando a competência associada à antologia. A casa funciona como espaço de confinamento, os interiores ajudam a materializar relações familiares deterioradas e existe uma estilização evidente na reconstrução do século XIX. Ninguém deveria esperar discrição visual de Ryan Murphy, e nem considero que essa fosse uma solução automaticamente melhor.

Meu problema está em outro excesso. A temporada parece acreditar que toda possibilidade precisa ganhar uma imagem, toda relação precisa esconder alguma perversidade e toda discussão precisa receber uma camada adicional de provocação. Quando absolutamente tudo precisa ser escandaloso, chega um momento em que o próprio escândalo perde força.

As melhores performances demonstram justamente que não precisava ser assim. Ella Beatty confia na ambiguidade, Rebecca Hall confia no gesto e Sarah Paulson confia na composição. A série, em contrapartida, frequentemente parece incapaz de confiar no vazio. E talvez nenhuma história exigisse mais confiança no vazio do que esta.

Mais de um século depois, continuamos falando sobre Lizzie Borden porque não sabemos definitivamente o que aconteceu naquela casa. Ryan Murphy entra nesse espaço com oito episódios, excelentes atores e uma quantidade enorme de possibilidades, mas demonstra dificuldade em aceitar que algumas perguntas ficam muito mais perturbadoras quando ninguém consegue respondê-las.

“Monstro: A História de Lizzie Borden” quer transformar incerteza em entretenimento justamente quando a incerteza já era a parte mais interessante da história. Existe uma ironia quase perfeita nisso: ao tentar criar sua própria versão de Lizzie, Ryan Murphy acaba repetindo exatamente aquilo que a cultura popular faz há mais de 130 anos. Preenche vazios, reorganiza rumores e oferece outra personagem para ocupar o lugar de uma mulher que provavelmente jamais conseguiremos conhecer completamente.

Talvez a série mais provocadora sobre Lizzie Borden fosse justamente aquela que tivesse coragem de admitir isso.

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Temas: Lizzie BordenRyan Murphy

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