A nova série da Netflix, “Sandokan”, marca o retorno de um dos grandes ícones da literatura de aventura em uma produção internacional ambiciosa, visualmente imponente e claramente interessada em ir além do entretenimento clássico. Inspirada nas obras de Emilio Salgari, a trama leva o espectador ao Bornéu de 1841, em pleno domínio colonial britânico, onde ação, romance e disputas políticas se misturam de forma orgânica. Ainda assim, o que sustenta a narrativa vai muito além de batalhas navais ou amores proibidos. “Sandokan” se constrói, sobretudo, como uma história sobre identidade, liderança e escolha.

No centro desse universo está Sandokan, vivido por Can Yaman. O ator turco, conhecido por trabalhos como “Erkenci Kuş”, “Dolunay” e “Bay Yanlış”, assume aqui um papel que exige presença física, intensidade emocional e carisma constante. Seu Sandokan surge como um pirata impulsivo, carismático e guiado por um senso de justiça muito próprio, alguém que vive à margem do império britânico enquanto desafia suas regras e símbolos de poder. A série deixa claro desde cedo que Sandokan carrega algo maior do que a imagem de fora da lei. Ele representa uma possibilidade de ruptura, mesmo quando tenta resistir a esse peso.
Essa tensão ganha força a partir da relação com Lady Marianna Guillonk, interpretada por Alanah Bloor. Filha do cônsul britânico, Marianna ocupa um lugar delicado dentro da narrativa. Ao mesmo tempo em que simboliza o amor impossível, ela também funciona como um espelho moral para Sandokan. Sua trajetória desafia as convenções vitorianas e recusa o papel passivo frequentemente associado a personagens desse contexto histórico. Marianna age, escolhe e se posiciona, tornando-se peça fundamental no processo de transformação do protagonista.
Outro eixo essencial da série está em Yanez de Gomera, vivido por Alessandro Preziosi. O personagem, tradicionalmente conhecido como o aliado fiel de Sandokan, ganha contornos mais densos nesta adaptação. Apresentado como um ex-missionário marcado por traumas e contradições, Yanez amplia o debate ético da trama e reforça o tom mais maduro da narrativa. Preziosi, nome consolidado da televisão italiana, entrega um personagem que transita entre a fé, a culpa e a lealdade, enriquecendo o drama sem roubar o foco do protagonista.
Do lado oposto do conflito surge Lord James Brooke, interpretado por Ed Westwick. Conhecido mundialmente por “Gossip Girl”, o ator encontra aqui um papel que explora sua capacidade de construir figuras sedutoras e perigosas. Brooke é mais do que um antagonista direto. Ele encarna o próprio sistema colonial, com sua elegância violenta, ambição política e obsessão por controle. Sua rivalidade com Sandokan extrapola o campo pessoal e se transforma em um embate ideológico sobre poder, território e dominação.
O elenco de apoio reforça essa construção de mundo com solidez. Madeleine Price aparece como Sani, representante do povo Dayak, trazendo humanidade e urgência ao conflito coletivo. Owen Teale vive o rígido Lord Guillonk, símbolo da autoridade colonial. John Hannah e Matt McCooey completam o núcleo político e militar da trama, ampliando a sensação de que cada escolha individual reverbera em algo maior.
À medida que os episódios avançam, o grande mistério de “Sandokan” se revela com clareza. A pergunta central jamais gira em torno de vitórias momentâneas ou romances interrompidos, mas sobre o destino do próprio protagonista. Sandokan seguiria como um pirata livre ou aceitaria o papel de líder capaz de unir e libertar um povo inteiro? Essa dúvida atravessa a temporada e transforma o herói em um símbolo em construção.
Os Dayaks precisam de algo que ultrapasse a figura de um guerreiro habilidoso. Eles buscam identidade, resistência e esperança. A série sugere, com inteligência, que Sandokan pode ser mais necessário como ideia do que como homem. Essa percepção adiciona uma camada política e emocional que eleva a produção acima de uma aventura histórica convencional.
Ao final da temporada, “Sandokan” deixa claro que sua força reside na escolha, e não no desfecho imediato do conflito. O verdadeiro suspense se estabelece na decisão íntima do protagonista sobre quem ele deseja ser diante da História. É essa construção cuidadosa, simbólica e emocional que dá à série um fôlego de épico e explica por que sua estreia na Netflix já carrega a ambição de algo duradouro.
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