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“Um Rio” de Leal transforma arte em ponte social em São Paulo

O centro de São Paulo, visto de cima, revela uma cidade que se estende em blocos de concreto, cimento e asfalto. Mas, ao aproximar o olhar, a capital paulista revela uma trama de histórias, resistências e encontros que desafiam a homogeneidade aparente. É desse contraste que nasce o Projeto Jardim a Jardim, uma iniciativa musical idealizada por Leal que busca construir pontes entre territórios muitas vezes separados pelas barreiras sociais e urbanas. Mais do que um projeto artístico, trata-se de um movimento que une cultura, música e engajamento comunitário em uma proposta que questiona estruturas e promove diálogos.

“Um Rio” de Leal transforma arte em ponte social em São Paulo

A ideia surgiu a partir da experiência de Leal com o terceiro setor e do impacto cultural de obras que retratam as periferias, como os Racionais MC’s, que moldaram sua percepção sobre desigualdade e identidade. Inspirado por essas referências e pela vivência nos territórios periféricos durante sua trajetória na psicologia, Leal transformou essas conexões em arte e ação social. O resultado é um projeto que conecta bairros centrais, como Jardim Paulista e Jardim Europa, a regiões periféricas como Jardim Ângela, Kagohara, Nakamura e Campo Limpo, unindo artistas e coletivos em uma narrativa que celebra a potência das periferias e questiona a lógica excludente da cidade.

É a materialização do sonho de aprofundar a relação entre mundos apartados, mas que pulsam na mesma cidade com diferentes ‘riquezas’”, reflete Leal, que há mais de 25 anos atua em organizações como “C de Cultura”, “Em Movimento”, “Instituto Arapyaú” e “Escola Livre Areté”. Para ele, o projeto é um convite a repensar a cidade e a trocar a lente da escassez pela da abundância, colocando a cultura como força motriz de transformação social.

A música que dá nome ao projeto, “Jardim a Jardim”, nasceu da parceria entre Leal e Diel Owdi, com coprodução de Claudinho, do Instituto Favela da Paz, e Gustavo Lenza, e já foi relançada no álbum “LEAL” em colaboração com Bia Ferreira. A faixa se tornou um manifesto político-poético, questionando divisões de classe e raça e dando o tom de uma proposta artística que se transforma em movimento social.

O projeto também se desdobra em uma série audiovisual que revisita as origens de cada parceria. Os primeiros três episódios funcionam como um mergulho em encontros e histórias de coletivos e artistas que moldam o cenário cultural das periferias paulistanas.

No Episódio 1, “Instituto Favela da Paz”, Claudinho é o centro de uma narrativa sobre sustentabilidade e esperança. “Eu tinha um sonho, que era mudar o lugar sem mudar daqui”, diz o artista, que se tornou uma figura emblemática da comunidade. Neste capítulo, Leal apresenta a inédita “Um Rio”, ao lado da canção que batiza o projeto.

O Episódio 2, “A Banca”, mergulha no ativismo da quebrada e no impacto cultural do rap nacional. Em uma performance emocionante de “Maracatu de Chão” e “Face Tua”, Leal revisita amizades e histórias de luta. O baixista Dom Maka destaca a importância do Racionais MC’s no empoderamento periférico: “Penso que a periferia só surgiu depois do Racionais MCs. Tinha muita gente da quebrada e de fora que não enxergava a periferia. Depois do Racionais, foi uma coisa de se empoderar, de falar ‘é nóis’ e de se orgulhar.”

O Episódio 3, “Organicamente Rango”, apresenta Thiago Vinícius, Tia Nice e Vitor Trindade em um retrato potente sobre os “corredores de afeto” criados na periferia, além de um olhar histórico sobre Solano Trindade. O capítulo é embalado por músicas como “Dois Irmãos”, “Ultramar” e “Garoto do Pandeiro”, reforçando a pluralidade sonora que define o projeto. Para Kennya Macedo, “Vocês estarem vivos aqui é político; não é partidário, pois política é tudo o que o cidadão faz.”

A proposta musical do Jardim a Jardim é um caldeirão de estilos brasileiros, com hip-hop, reggae, dub, fandango, samba e elementos do Manguebeat. A sonoridade é híbrida, mas carrega um fio condutor: a valorização da cultura popular e a construção de um diálogo entre diferentes realidades urbanas.

Leal se prepara agora para lançar o álbum “LEAL” em vinil e levar o projeto a novos palcos, com shows, novos episódios e parcerias que ampliam o impacto da proposta. O Jardim a Jardim não é só música; é um ato político, uma plataforma de reflexão e um convite à ação. É uma demonstração de que a cultura tem o poder de transformar cidades e criar pontes reais entre mundos que, à primeira vista, parecem distantes.

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