A segunda temporada de “Vermelho Sangue” poderia ter escolhido o caminho mais seguro depois de apresentar Guarambá, suas criaturas e toda a mitologia que sustenta a produção do Globoplay. Poderia organizar melhor cada elemento, diminuir seus excessos e transformar a série em uma versão mais comportada daquilo que vimos inicialmente. Ainda bem que não fez nada disso. A nova temporada funciona justamente porque entende que a personalidade de “Vermelho Sangue” está no exagero e decide abraçá-lo sem qualquer vergonha.

Agora que não precisa gastar tanto tempo explicando vampiros, lobos e as regras desse universo, a série consegue olhar com mais atenção para aquilo que realmente importa: o que essas transformações fazem com seus personagens. A mudança de Flora, interpretada por Alanis Guillen, é provavelmente o exemplo mais interessante. Tornar-se vampira não significa apenas ganhar uma nova condição sobrenatural, mas mudar sua relação com o próprio corpo, com o desejo e com as pessoas ao redor.
Até visualmente existe uma nova Flora. O figurino assume referências punk e rock, incorpora couro, meia arrastão e uma paleta mais escura, enquanto a própria atuação de Alanis acompanha essa transformação. Sua postura e seu olhar ganham outra temperatura, fazendo com que a personagem pareça diferente antes mesmo de precisar explicar o que mudou.
A relação com Celina, vivida por Laura Dutra, também cresce nesse processo. O romance ganha mais espaço, mas principalmente mais confiança. Existe química suficiente entre as duas para que desejo e tensão sejam construídos pela presença das atrizes, sem depender constantemente de diálogos explicativos. A sensualidade faz sentido dentro de uma história sobre jovens que estão descobrindo novas versões de seus próprios corpos.
Luna também encontra um caminho mais interessante nesta temporada. Letícia Vieira consegue trabalhar a vulnerabilidade da personagem enquanto a narrativa avança em sua relação com a própria natureza. A presença de Martín, interpretado por Milhem Cortaz, e Juan, vivido por Lucas Leto, ajuda a fazer com que a mitologia da loba-guará deixe de ser apenas uma curiosidade fantástica e passe a interferir diretamente na identidade da protagonista.
No fundo, é justamente isso que faz “Vermelho Sangue” funcionar para mim. Podemos falar de vampiros, lobos, sangue, experimentos e criaturas, mas existe uma história sobre identidade atravessando tudo. Flora e Luna mudam de maneiras completamente diferentes, enquanto precisam descobrir o que fazer quando uma nova versão de si mesmas se torna impossível de ignorar.
A chegada de Elizabeta, interpretada por Alli Willow, e sua aproximação com Otto, vivido por Rodrigo Lombardi, também ajudam a aumentar a escala da história. A busca pelo sangue dos lobos, o desenvolvimento de um sérum e os novos conflitos entre ciência e sobrenatural deixam Guarambá ainda mais caótica.
E eu gosto justamente desse caos.
“Vermelho Sangue” não parece interessada em pedir desculpas por ser uma fantasia brasileira cheia de criaturas, romance, desejo e acontecimentos absurdos. Essa segurança é uma das maiores evoluções da segunda temporada. Existe uma diferença entre perder o controle e entender o prazer do excesso, e a série começa a demonstrar que sabe exatamente de que lado quer estar.
O elenco também parece muito mais confortável dentro desse universo. A sensação de descoberta do primeiro ano dá lugar a interpretações que entendem melhor o tom particular da produção. Alanis Guillen aproveita especialmente essa liberdade, mas Laura Dutra e Letícia Vieira também encontram mais espaço para construir suas personagens por meio dos olhares, dos silêncios e das contradições.
Ainda existe um risco evidente. Quanto mais a mitologia cresce, maior é a possibilidade de transformar expansão em simples acúmulo de personagens, criaturas e regras. “Vermelho Sangue” precisará continuar garantindo que toda essa fantasia esteja conectada às pessoas que ocupam o centro da história.
Por enquanto, porém, a segunda temporada mostra uma produção muito mais consciente da própria identidade. “Vermelho Sangue” ficou maior, mais sensual, mais estranha e mais exagerada, mas também parece finalmente confortável sendo exatamente aquilo que decidiu ser.
Talvez seja justamente essa a qualidade que mais me conquista. Eu prefiro uma fantasia brasileira disposta a correr o risco de ser demais do que uma produção que passa episódios inteiros tentando não incomodar ninguém. “Vermelho Sangue” quer romance, sangue, criaturas, ciência, desejo, família e caos dentro do mesmo universo. A segunda temporada prova que existe espaço para tudo isso quando personalidade não falta.
Guarambá ficou maior e muito mais interessante. Minha sede agora é descobrir até onde esse universo ainda pretende chegar.
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