“1923” se posiciona como uma tentativa ambiciosa de revisitar o passado com fôlego de superprodução. A série, que amplia o universo de “Yellowstone”, investe numa estrutura grandiosa que percorre paisagens brutais e narrativas fragmentadas, sempre carregada de propósito. Mas diferente de “1883”, que apostava em uma jornada única e coesa, aqui o criador Taylor Sheridan assume o risco de abrir frentes demais ao mesmo tempo. E mesmo que isso, por vezes, cause desequilíbrio, o que emerge é uma obra densa, quase sufocante, que entrega tanto em escala quanto em tensão.
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A série sustenta seu peso histórico com imagens belíssimas e atuações monstruosas. Helen Mirren, em especial, domina a tela com uma presença que mistura dureza e sensibilidade, desafiando os estereótipos femininos dentro do gênero faroeste. Harrison Ford, mesmo em performance mais contida, ancora a narrativa com carisma e autoridade. É curioso observar como Sheridan finalmente acerta o tom na construção de personagens femininas. Cara Dutton é, talvez, sua figura feminina mais complexa e honesta até aqui.
A proposta de dividir a temporada em três núcleos distintos parecia, à primeira vista, uma escolha desequilibrada. Porém, com o tempo, fica evidente que há uma lógica emocional por trás. O arco de Spencer Dutton, vivido com magnetismo por Brandon Sklenar, é uma mistura de filme de ação, melodrama e cinema de aventura clássico. Funciona como respiro e espetáculo ao mesmo tempo. Já o núcleo de Teonna é onde a série encontra seu lugar mais amargo e politicamente contundente. A violência explícita contra os povos indígenas serve como denúncia e ferida aberta na narrativa, com destaque absoluto para Aminah Nieves, em performance visceral.
Mas nem tudo funciona com a mesma potência. As tramas paralelas envolvendo personagens secundários na fazenda perdem ritmo e relevância, com atuações menos inspiradas e diálogos pouco inspirados. Sheridan, como roteirista, insiste em usar seus personagens como porta-vozes de ideias e discursos que soam anacrônicos ou didáticos demais. Por vezes, o roteiro abandona a história e vira panfleto, o que compromete a fluidez da narrativa.
O problema maior, porém, está no peso da própria ambição. “1923” quer ser tudo: drama histórico, faroeste moderno, crítica social, saga familiar. E mesmo que acerte em vários desses pontos, o acúmulo de camadas cobra um preço. O excesso de desgraças, traições, mortes e tragédias transforma a experiência num terreno exaustivo. A série beira o sofrimento como fetiche e não como recurso dramático. Sheridan se apoia tanto na violência como motor narrativo que, em alguns momentos, o impacto se perde e a repetição esvazia.
Ainda assim, “1923” se sustenta como uma produção visualmente arrebatadora e corajosa em sua proposta. Mesmo irregular, há força suficiente para manter o espectador investido. A sensação final é de que há muito mais para explorar, mas também de que será preciso coragem para encerrar essa história sem perder a alma no processo. Porque mais do que conquistar terras, a verdadeira luta dos Dutton sempre foi por identidade. E nesse ponto, a série acerta em cheio.
“1923” – 1ª temporada
Criação: Taylor Sheridan
Direção: Ben Richardson, Guy Ferland
Elenco: Helen Mirren, Harrison Ford, Brandon Sklenar
Disponível em: Netflix
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