Há algo inquietante em assistir a um suspense que começa afiado, instigante, promissor… e então se perde em sua própria inércia. “A Garota Roubada” parece ser construída em torno da ideia de que a tensão por si só basta para sustentar uma narrativa, mas esquece que nenhuma atmosfera se sustenta sem coerência interna, personagens consistentes e um propósito que vá além da estética da urgência.
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A série até parece compreender os códigos do gênero. Sabe onde aplicar o silêncio, como usar a trilha para sugerir ameaça, como armar uma reviravolta para prender o espectador. Mas ela falha no mais básico: dar verossimilhança à reação humana. Os personagens muitas vezes parecem fantoches de roteiro, tomando decisões que desafiam qualquer lógica emocional ou psicológica. E não é uma falha isolada. É estrutural.
O que mais incomoda não é o ritmo desigual, nem o fato de que o mistério se esvazia antes da metade. O maior problema de “A Garota Roubada” é que ela pede ao público que acredite demais e pense de menos. E em um suspense dramático, isso é fatal. Não há surpresa que resista ao desgaste da previsibilidade. Quando o twist principal se revela, ele não causa impacto. Ele apenas confirma o que já era intuído há dois episódios. E o que sobra depois disso é uma sucessão de decisões questionáveis e reações genéricas que anulam qualquer potência que a obra poderia ter.
Ainda assim, há méritos técnicos que não passam despercebidos. A direção de arte é precisa, as locações são utilizadas com inteligência visual e a fotografia sustenta bem o clima ambíguo entre o doméstico e o ameaçador. Holliday Grainger, apesar de presa a um roteiro limitado, oferece entrega e nuance em um papel que merecia mais complexidade. E Denise Gough, com sua presença quase sempre ameaçadora, cria um desconforto que funciona, mesmo quando o texto a subutiliza.
Mas nenhum talento sobrevive sozinho à fragilidade narrativa. A série erra ao simplificar a criança como figura ingênua demais, desprovida de senso mínimo de realidade, e isso mina o envolvimento emocional que deveria ser motor da história. É difícil se importar com personagens que não reagem como pessoas, mas como mecanismos de roteiro. E quando o emocional falha, o suspense perde a força.
“A Garota Roubada” quer ser inteligente, mas subestima sua audiência. Quer ser perturbadora, mas escolhe o caminho mais raso. Quer ser um thriller psicológico, mas entrega apenas uma sequência de eventos previsíveis disfarçados de complexidade. É o tipo de série que começa como promessa e termina como frustração, porque entrega o esqueleto do gênero, mas não a alma que o faz pulsar.
No fim, o que poderia ser um estudo sobre maternidade, identidade e manipulação vira apenas mais um produto enfileirado entre thrillers que surgem com impacto e desaparecem sem deixar vestígio. É o tipo de obra que lembra mais o algoritmo do que o autor. E isso, por si só, já diz muito sobre os riscos que se corre ao transformar suspense em fórmula.
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