Existe uma diferença tênue entre um drama médico com camadas e um filme que se comporta como episódio estendido de série genérica de hospital. “A Mistake”, dirigido por Christine Jeffs, cai direto na segunda categoria, mesmo tentando se vestir com a gravidade de uma obra densa sobre culpa, ética e reputações despedaçadas.
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O enredo acompanha a cirurgiã Elizabeth Taylor (sim, esse é o nome da protagonista), interpretada por Elizabeth Banks, que vê sua carreira ruir após um erro cometido durante uma cirurgia de emergência. Ao permitir que um residente inexperiente realize parte do procedimento, uma sequência de eventos se desenrola: a paciente morre, o hospital instaura um novo protocolo de transparência e a médica veterana vira o rosto público de uma crise institucional. Em teoria, é um drama moral complexo, cheio de dilemas éticos e tensão profissional. Na prática, é uma narrativa apática, de ritmo irregular e personagens que flutuam entre o superficial e o previsível.
Elizabeth Banks até segura as pontas como protagonista, mas seu desempenho esbarra na falta de material dramático potente e em uma tentativa forçada de adotar um sotaque neozelandês que não se sustenta. A personagem caminha por corredores, olha através de janelas, desmonta paredes e revive traumas silenciosos ao som de trilhas sonoras melosas, enquanto o espectador espera que algo de fato aconteça. A direção opta por um minimalismo visual que, em vez de gerar tensão, reforça a sensação de apatia. Tudo parece domesticado demais para um thriller médico.
A trama tenta levantar questões importantes, como a forma como instituições se protegem transferindo a culpa para indivíduos, o machismo estrutural dentro do sistema hospitalar e o peso emocional que recai sobre médicos em situações-limite. No entanto, o roteiro empilha esses temas sem aprofundá-los, deixando tudo em superfície morna. Os antagonistas são caricatos, as viradas dramáticas são telegrafadas, e os conflitos se resolvem sem o menor impacto emocional.
Os coadjuvantes também não ajudam. Simon McBurney entrega mais um de seus vilões frios e burocráticos, mas sem qualquer novidade. E a presença de Mickey Sumner é quase simbólica, subaproveitada ao ponto de ser esquecível. Mesmo os elementos que deveriam criar camadas narrativas como o subplot envolvendo a morte de um cachorro por negligência ou os questionamentos sobre dispositivos intrauterinos soam deslocados, gratuitos ou mal resolvidos.
Ao longo dos 102 minutos, o longa hesita entre querer ser um estudo de personagem, um manifesto feminista e um suspense jurídico. E é exatamente nessa indecisão que o filme se perde. Em vez de mergulhar com precisão cirúrgica no dilema ético da protagonista, ele opta por soluções fáceis e pelo caminho já trilhado por tantos outros dramas médicos em horário nobre. Quando chega ao terceiro ato, “A Mistake” já entrou no território do melodrama televisivo, com discursos prontos e uma resolução apressada, deixando para trás o que poderia ser uma abordagem interessante sobre como sistemas esmagam indivíduos.
No fim das contas, a escolha do título parece profética demais. “A Mistake” não é só a história de um erro médico com consequências irreversíveis. É também uma obra que erra ao desperdiçar sua premissa, seus temas e até mesmo o talento de sua protagonista.
“A Mistake”
Direção: Christine Jeffs
Elenco: Elizabeth Banks, Simon McBurney, Mickey Sumner
Disponível em: Prime Video
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