O acaso sempre cobra um preço alto quando decide cruzar caminhos errados. Uma porta aberta no momento indevido, uma presença que jamais deveria estar ali e, de repente, a engrenagem da violência começa a girar sem possibilidade de retorno. É desse choque entre destino e sobrevivência que nasce a tensão central de “A Última Vítima”, um filme que flerta com o cinema de ação pulp, mas tenta cavar algo mais profundo sob a superfície do gênero.

A narrativa acompanha um daqueles cenários clássicos do thriller criminal. Uma testemunha inesperada presencia um assassinato e se transforma automaticamente em alvo. Peyton surge como essa peça fora do tabuleiro, alguém empurrada para o centro de um jogo que desconhece completamente. Do outro lado estão dois matadores com naturezas opostas. Palmer representa o caos absoluto, a violência sem freio, quase um arquétipo do assassino imprevisível. Keele, por sua vez, carrega o peso do cansaço moral, um homem que já ultrapassou o limite do que consegue suportar. Essa oposição sustenta o conflito dramático do filme, criando uma tensão que vai além da simples perseguição.
O que poderia se limitar a um exercício de gênero encontra um desvio interessante ao transformar o confronto em uma relação quase íntima entre caçador e alvo. O roteiro aposta em diálogos carregados de atrito emocional, confinando personagens em espaços fechados e explorando o silêncio, o medo e a desconfiança. Aos poucos, o filme se afasta da lógica da ação constante e se aproxima de um estudo de personagens, flertando com um drama de redenção que lembra narrativas de estrada emocional, ainda que o percurso aqui seja claustrofóbico e marcado por portas trancadas.
Existe uma tentativa clara de subverter expectativas. A relação entre Keele e Peyton assume contornos inesperados, evocando uma dinâmica de proteção forçada que dialoga com histórias de figuras quebradas buscando algum tipo de absolvição tardia. O filme parece mais interessado em discutir culpa e escolha do que em acumular corpos, mesmo quando a ameaça representada por Palmer insiste em empurrar a trama de volta para a violência explícita.
Essa ambição, no entanto, esbarra em limitações visíveis. A estética simples, a fotografia pouco inspirada e certas atuações irregulares enfraquecem o impacto de uma proposta que pede mais rigor formal. O retrato do submundo criminal carece de verossimilhança em vários momentos, o que compromete a construção de tensão à medida que a história avança. O resultado final oscila entre boas ideias e uma execução que nem sempre acompanha a intenção, deixando a sensação de um filme que poderia ser mais incisivo.
Ainda assim, “A Última Vítima” encontra valor na tentativa. O longa revela respeito pelo cinema independente e pela tradição do thriller de baixo orçamento que aposta em personagens como motor narrativo. Mesmo tropeçando em excessos e escolhas questionáveis, entrega uma experiência curiosa, sustentada mais pela dinâmica entre seus protagonistas do que pela ação em si. Para quem aprecia narrativas criminais que tentam escapar do automático, o filme oferece um olhar imperfeito, mas interessado em algo além do óbvio.
“A Última Vítima”
Direção: Reem Morsi
Elenco: Alexia Fast, Josh Cruddas, Shawn Doyle
Disponível em: Amazon Prime Video
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






