Asterix ainda tem fôlego. E mais que isso, tem precisão, ritmo e entendimento de sua própria herança gráfica. “Asterix e Obelix – O Combate dos Chefes”, primeira temporada da série animada da Netflix, acerta onde tantas outras adaptações de quadrinhos fracassam: na transição entre linguagem, ritmo e espírito.
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Nada aqui soa adaptado às pressas, plastificado ou domesticado para o paladar do algoritmo. Há um domínio narrativo que entende que Asterix funciona porque é irônico, porque é exagerado, porque se ancora na paródia histórica como veículo para humor físico, absurdo e, principalmente, inteligente. E isso está todo o tempo presente.
A série parte de um ponto narrativo clássico: o sumiço da fórmula da poção mágica, e com ela, a vulnerabilidade do povo gaulês frente aos romanos. Mas o roteiro sabe que não basta repetir a estrutura de álbum. Ele precisa respirar como série, gerar microconflitos, escalar tensões e explorar nuances que o tempo de tela permite. Essa ampliação do universo, sem perder o DNA dos personagens, é o que transforma a série em algo que vai além da nostalgia.
A direção de arte é um caso à parte. A animação tem textura, vida e fluidez. Os personagens não apenas se movem com naturalidade, mas com expressão. E não falo da expressão facial, mas do gesto, da linguagem corporal, da coreografia interna que sustenta cada piada visual. O humor é visual, textual e rítmico. Está nos diálogos, nos enquadramentos, nos silêncios bem colocados. É humor construído, não atirado ao acaso.
Narrativamente, a série acerta ao expandir o passado dos protagonistas. Explorar a juventude de Asterix e Obelix adiciona uma camada emocional inesperada, sem cair em sentimentalismo. É funcional, amplia a mitologia sem comprometer a leveza. Tudo isso ancorado em episódios curtos, mas coesos, que mantêm um ritmo consistente, com exceções pontuais de fôlego em episódios intermediários.
Há um entendimento raro aqui de como manter uma série leve sem ser superficial. O roteiro brinca com arquétipos, mas sem zombar deles. O humor é acessível, mas não simplista. A crítica social, sempre presente nas histórias de Goscinny e Uderzo, aparece nas entrelinhas, como deve ser.
“Asterix e Obelix – O Combate dos Chefes” é uma vitória estética e narrativa em um terreno onde muita coisa fracassa por insegurança criativa. A série confia no seu material, entende seu público e não tenta ser mais do que precisa. Mas entrega mais do que se espera.
Se a Netflix continuar nesse caminho, o legado de Asterix encontrou, enfim, um novo formato digno da sua complexidade e humor ácido. Que venha o próximo álbum. E que César continue apanhando, com todo o charme possível.
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