Há algo de urgente em “Baby” que torna impossível assistir sem sentir o peso e o pulsar de cada escolha. Marcelo Caetano, que já havia revelado uma sensibilidade singular em “Corpo Elétrico”, retorna aqui mais maduro, mais afiado e também mais disposto a tensionar o que se espera do cinema queer brasileiro. “Baby” não parte da dor como ponto de chegada, nem da aceitação como arco obrigatório. O que se vê é um retrato de sobrevivência emocional e física em meio à ruína, mas sem ceder à tragédia fácil.
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O centro de tudo é Wellington, ou Baby, um jovem recém-saído de uma instituição de detenção que vaga por uma São Paulo que não acolhe, apenas engole. O encontro com Ronaldo, um garoto de programa calejado, abre caminho para uma relação que nunca se encaixa em categorias previsíveis como tutor e pupilo, vítima e explorador, amante e rival. O que se constrói entre eles é fricção e afeto, instinto e cuidado, desejo e brutalidade. Caetano nunca entrega ao espectador a segurança de um rótulo pelo contrário, a força do filme está na constante recusa a qualquer tipo de simplificação.
A cidade é mais que cenário. É personagem. O centro de São Paulo é capturado com uma textura quase documental, sem verniz, sem filtro. O trabalho de fotografia de Joana Luz e Pedro Sotero atua como lente emocional do filme. Cada plano parece impregnado de um sentimento específico: solidão, calor, espera, ameaça. A direção de arte de Thales Junqueira constrói um espaço urbano que não romantiza a marginalidade, mas também não a estetiza como fetiche. É real, é sujo, é vivo.
Mas “Baby” não é apenas sobre espaço. É sobre corpo. Sobre como corpos queer circulam, sobrevivem e se protegem em ambientes onde tudo parece instável. Caetano filma o corpo masculino com interesse, mas não com pressa. Não há erotismo gratuito, tampouco pudor hipócrita. Há intimidade e desconforto, há ternura e descontrole. O sexo, quando aparece, é linguagem, não recurso. É através dele que os personagens testam limites, reafirmam desejos e, por vezes, se comunicam com mais honestidade do que pela fala.
A atuação de João Pedro Mariano é de uma contenção dilacerante. Baby, seu personagem, raramente reage de forma explosiva, mas tudo em seu olhar carrega tensão, insegurança, uma vontade surda de existir. Já Ricardo Teodoro entrega uma performance que parece feita de cicatrizes. Ronaldo é um homem que se protege tanto quanto agride, que oferece afeto com a mesma mão com que impõe limites. Juntos, os dois formam uma dinâmica instável e magnética, onde não há progresso, só movimento.
O filme evita as armadilhas narrativas que costumam engessar personagens queer. Não é uma história de saída do armário. Não é uma denúncia programática. É uma obra sobre como pertencimento, prazer e dor são parte da mesma equação, especialmente quando se vive à margem do que o sistema considera aceitável. Há momentos em que tudo parece prestes a desmoronar, e o filme não tenta salvar ninguém. Essa honestidade é seu maior trunfo.
“Baby” caminha por uma fronteira difícil: a de capturar a beleza em meio à violência sem estetizar o sofrimento. É um filme que incomoda e encanta na mesma medida, que expõe feridas sem dramatizá-las. O prazer aqui é um ato de resistência, e o amor, quando aparece, é menos como solução e mais como alívio breve entre duas tempestades.
“Baby”
Direção: Marcelo Caetano
Elenco: João Pedro Mariano, Ricardo Teodoro, Bruna Linzmeyer
Disponível em: Telecine
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