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Crítica: “Backrooms: Um Não-Lugar” (Backrooms)

Texto: Ygor Monroe
27 de maio de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Aquela sensação desconfortável de entrar em um corredor vazio de escritório às três da manhã, ouvir o zumbido cansado de uma lâada fluorescente e perceber que o silêncio parece respirar ganha forma em “Backrooms: Um Não-Lugar”. Kane Parsons transforma um medo coletivo da internet em algo muito mais sofisticado do que um simples exercício de horror viral. O cineasta entende que o verdadeiro terror mora no espaço que antecede a ameaça, naquele instante em que o cérebro tenta preencher o vazio com algo que talvez sequer esteja ali. O resultado é uma experiência sufocante, hipnótica e estranhamente melancólica, como se David Lynch tivesse se perdido dentro de um prédio corporativo infinito enquanto “Silent Hill” observava tudo de longe.

Crítica: “Backrooms: Um Não-Lugar” (Backrooms)
Crítica: “Backrooms: Um Não-Lugar” (Backrooms)

Inspirado no fenômeno digital que tomou conta de fóruns, vídeos e creepypastas nos últimos anos, o longa abandona a ideia de adaptar um meme para construir uma reflexão inquietante sobre solidão, ansiedade e a despersonalização dos ambientes modernos. Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, surge como um homem esmagado pela banalidade do cotidiano, alguém preso em corredores emocionais muito antes de descobrir os corredores físicos escondidos sob sua loja de móveis. Quando o porão se transforma em uma arquitetura impossível, o filme encontra seu grande trunfo: a noção de que aquele labirinto talvez seja menos um espaço sobrenatural e mais um reflexo psicológico de personagens emocionalmente fragmentados.

Kane Parsons demonstra uma segurança visual impressionante para um diretor tão jovem. A câmera se movimenta como uma entidade curiosa e paranoica, explorando cantos, portas e sombras com uma paciência quase cruel. Cada enquadramento provoca o espectador a procurar algo escondido no fundo da tela, como se o próprio filme estivesse brincando com o medo ancestral da escuridão. O terror aqui nasce da antecipação. A ameaça raramente explode de imediato. Ela contamina lentamente o ambiente, crescendo dentro da imaginação do público até se tornar insuportável.

O desenho de som merece destaque absoluto. Poucos filmes recentes compreenderam tão bem o poder do ruído ambiente. O eco metálico, o chiado elétrico e os sons distantes criam um estado constante de alerta. Existe uma agressividade silenciosa na maneira como o áudio invade cada cena, quase como um ataque sensorial. Em muitos momentos, “Backrooms: Um Não-Lugar” lembra o desconforto psicológico provocado por “Skinamarink”, mas com uma narrativa mais acessível e um senso espacial muito mais elaborado. Parsons compreende que corredores vazios podem ser mais aterrorizantes do que criaturas grotescas correndo em direção à câmera.

E talvez esteja justamente aí a maior inteligência do longa. O medo funciona melhor quando permanece incompleto. Quanto menos o filme explica, mais assustador ele se torna. Quando as respostas começam a surgir, parte do impacto inevitavelmente diminui. Certas revelações visuais no terceiro ato enfraquecem um pouco a força abstrata construída até então, porque aquilo que vive escondido na penumbra quase sempre parece mais poderoso do que sua materialização definitiva. Ainda assim, mesmo quando tropeça em algumas convenções mais tradicionais do gênero, o filme nunca perde sua capacidade de gerar tensão.

Renate Reinsve entrega uma atuação magnética como Dra. Mary Kline. Sua presença carrega uma inquietação silenciosa que combina perfeitamente com a atmosfera do filme. Existe um esgotamento emocional estampado em seu olhar que amplia ainda mais o caráter psicológico da narrativa. Já Chiwetel Ejiofor sustenta o peso dramático necessário para impedir que a produção se torne apenas um desfile de corredores perturbadores e conceitos abstratos. O elenco inteiro parece entender que o horror proposto por Parsons exige contenção, não exagero.

Também chama atenção como “Backrooms: Um Não-Lugar” conversa discretamente com paranoias atuais envolvendo inteligência artificial, alienação digital e a sensação de desconexão produzida por ambientes cada vez mais artificiais. O labirinto funciona como uma metáfora para um mundo hiperestimulado, mas emocionalmente vazio, onde indivíduos caminham sem direção tentando encontrar sentido em espaços que parecem existir apenas para aprisioná-los. É um terror arquitetônico, existencial e profundamente complexo.

Mesmo com um roteiro relativamente simples, o longa compensa qualquer limitação narrativa através de atmosfera. Kane Parsons não parece interessado em entregar respostas prontas. Seu foco está em provocar desconforto, estimular interpretações e deixar imagens grudadas na cabeça do espectador durante dias. E consegue. Poucos filmes recentes entendem tão bem a diferença entre susto e pavor genuíno. “Backrooms: Um Não-Lugar” não busca apenas fazer o público gritar. Quer provocar aquele arrepio silencioso que aparece horas depois, quando um corredor vazio parece longo demais e o silêncio de casa começa a soar estranho.

“Backrooms: Um Não-Lugar”
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Roberto Patino
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve e Mark Duplass
Disponível em: cinemas em 28 de maio de 2026

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: BackroomsChiwetel EjioforCríticaMark DuplassResenhaReview

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