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Crítica: “Brincar com o Fogo” (Jouer avec le feu)

“Brincar com o Fogo” se apresenta como um filme sobre a ascensão do extremismo, mas na prática é sobre os escombros afetivos que ele deixa pelo caminho. As diretoras tentam lançar um alerta político, mas tropeçam quando escolhem o caminho mais raso da representação. O que poderia ser um estudo tenso e psicológico sobre o aliciamento de jovens por grupos extremistas se transforma em uma narrativa que acerta no impacto, mas erra na profundidade.

Do mesmo diretor de “Noites Brutais”, “A Hora Do Mal” estreia em agosto no Brasil

Crítica: “Brincar com o Fogo” (Jouer avec le feu)

O centro do filme não é o fascismo. É o colapso entre pai e filho. É o silêncio que se instala entre eles. É a tentativa de um homem de manter os vínculos com um filho que já foi levado, não por doutrinas complexas, mas por uma violência emocional silenciosa que já habitava a casa antes de qualquer discurso radical aparecer. O extremismo aqui entra como consequência, não como causa. E isso não é falha, é escolha. A questão é que essa escolha pede rigor, e o filme às vezes se acomoda demais na superfície.

Esteticamente, há momentos de impacto. A frieza da direção de arte e a rigidez dos enquadramentos acompanham o isolamento afetivo dos personagens. Mas o filme vacila ao tentar alternar estilos visuais sem encontrar uma coesão formal. O resultado é uma narrativa que oscila entre o contemplativo e o caótico, sem conseguir costurar uma identidade clara. Há cortes que soam apressados, elipses mal resolvidas e transições visuais que mais confundem do que amarram a tensão dramática.

O texto escapa de explicar o aliciamento ideológico, e isso por si só não seria problema se tivesse explorado com mais afinco o efeito subjetivo dessa radicalização. Mas o que o filme entrega é mais o impacto da ausência do que a presença do perigo. Falta densidade na construção dos mecanismos de sedução e de controle. O extremismo aparece como algo que simplesmente “chega”, sem esforço narrativo para mostrar como ele se infiltra.

Ainda assim, há um mérito inegável: o filme emociona, e emociona com força. A relação entre pai e filho é genuinamente dolorosa, e os atores entregam performances cruas, que carregam peso nos olhos, no corpo, na forma como o afeto vira frustração. O protagonista tenta manter um mundo em pé enquanto tudo ao redor implode, e sua impotência é o grande trunfo do filme. É aí que a obra realmente fala algo sobre o presente: os vínculos afetivos estão em colapso, e o discurso extremista se aproveita do vazio.

“Brincar com o Fogo” erra na tentativa de fazer um comentário político totalizante, mas acerta quando se concentra nas ruínas emocionais deixadas por esse colapso. É um filme imperfeito, desorganizado, às vezes perdido em suas intenções, mas também honesto, humano e comovente. Se tivesse renunciado à ambição de explicar o mundo para simplesmente escavar os sentimentos mais escuros que unem e desunem uma família, poderia ter sido maior. Ainda assim, é um filme que não se esquece com facilidade. Não pelo discurso, mas pelas cicatrizes que deixa.

Avaliação: 1 de 5.

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