A nova versão em live-action de “Como Treinar o Seu Dragão” chega cercada por um dos debates mais exaustivos da atual cultura pop: o de que refilmagens são, por natureza, desnecessárias. Quando se trata de recontar uma história que já tinha alcançado perfeição emocional e visual em sua encarnação animada de 2010, o terreno se torna ainda mais escorregadio. E, surpreendentemente, esse remake não tenta se desviar desse solo conhecido. Pelo contrário, mergulha de cabeça no material original, sem medo de repetir a fórmula.
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A estratégia aqui não é reinvenção, mas transposição fiel com inteligência cênica e precisão estética. A estrutura narrativa é quase idêntica à da animação. Ao invés de inventar justificativas para se distanciar da base, o filme se ancora em sua familiaridade como força estética. O diferencial surge justamente da transição de linguagem: ao passar da animação para o realismo fantástico do live-action, o filme se abre para novas camadas de textura, escala e fisicalidade. O que já era tocante se torna ainda mais tangível. O que era grandioso ganha peso.
O elenco contribui com atuações calibradas em um tom que respeita o original sem parecer caricato. Há um cuidado notável em preservar a personalidade dos personagens enquanto se explora uma nova dimensão de presença física, graças a um casting que acerta tanto no visual quanto no gestual. O design dos dragões, agora com um acabamento mais animalesco e menos cartunesco, reforça essa proposta mais orgânica. O Banguela, em especial, ganha nuances visuais que elevam seu carisma sem recorrer à fofura artificial. Ele é expressivo, ágil, selvagem, mas ainda profundamente afetuoso.
A fotografia é uma das grandes conquistas do filme. Filmado majoritariamente em locações naturais, possivelmente na Irlanda, o longa expande a paisagem de Berk para além da fantasia digital, tornando-a parte da narrativa. A câmera captura com precisão atmosférica os tons cinzentos, a neblina e a brutalidade do ambiente viking, criando um cenário palpável onde mitos e humanidade se entrelaçam com força visual.
A direção, novamente nas mãos de Dean DeBlois, acerta ao manter a escala emocional em paralelo com a escala física. O clímax, por exemplo, abandona o tom de fábula e flerta com o épico, adotando uma linguagem visual próxima do cinema de monstros gigantes, sem perder o foco no vínculo central entre humano e criatura. É nesse equilíbrio entre espetáculo e intimidade que o filme alcança seus melhores momentos.
As sequências de voo talvez não tenham a mesma leveza onírica do original, mas ainda assim entregam tensão e impacto. A sensação de vertigem é cuidadosamente mantida em cenas-chave, especialmente quando o personagem principal se vê confrontado com o desconhecido. A direção entende que a experiência visual só é relevante quando carrega consequência emocional.
No fim das contas, o que torna este remake tão eficaz é o fato de que ele não tenta se justificar. Ele existe para celebrar a mesma história, com outra linguagem, outro peso, outra presença. Não é uma atualização forçada nem um aceno nostálgico, é uma reinterpretação cinematográfica que valoriza o que já funcionava e entende o poder de reencenar com convicção.
“Como Treinar o Seu Dragão” no live-action funciona porque entende que sua alma não está na novidade, mas na verdade emocional que carrega. E se, 15 anos depois, ela ainda nos comove com a mesma força, é porque esse laço entre homem e criatura, entre medo e confiança, continua a ser uma das metáforas mais bonitas que o cinema de fantasia já criou.
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