Existem filmes que se anunciam com intensidade pelo tema que carregam. “Crime na Rodovia Paraíso” é um desses casos, um thriller que parte de um ponto delicado: o tráfico humano, tratado através da história de uma caminhoneira que acaba se tornando peça involuntária em uma rede criminosa. O enredo é carregado de intenções nobres, mas a execução revela um contraste entre a gravidade da pauta e a fragilidade da narrativa.
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Juliette Binoche encara o papel de Sally com coragem e entrega, assumindo um registro cru e despojado que destoa de sua filmografia mais refinada. É interessante vê-la nesse deslocamento, vivendo uma mulher marcada pelo cansaço e pela dureza da estrada. O problema é que, apesar do empenho da atriz, o roteiro não oferece profundidade suficiente para que sua transformação emocional ganhe consistência. O mesmo vale para Morgan Freeman, que surge como agente do FBI, mas fica preso a uma participação protocolar. Frank Grillo, como o irmão encarcerado, repete maneirismos e não consegue elevar sua presença.
O grande destaque é Hala Finley, que consegue dar peso ao filme com uma atuação surpreendente. Sua personagem, Leila, funciona como a verdadeira âncora dramática. Mesmo com diálogos escassos, ela transmite o trauma e a resiliência da sobrevivência em cada gesto, criando uma relação de cumplicidade com Sally que, em momentos isolados, dá ao filme o coração que ele tanto precisava expandir.
Do ponto de vista técnico, há méritos inegáveis. A fotografia e o uso da luz reforçam a atmosfera árida da estrada e conferem uma beleza inesperada a um universo sujo e perigoso. O problema está no ritmo. O filme se arrasta em longos trechos, sem a tensão que deveria sustentar um suspense de alto risco. A comparação inevitável com outras narrativas de dupla em fuga, como em “The Last of Us”, só evidencia como o filme tenta alcançar intensidade, mas se contenta com fórmulas.
A diretora Anna Gutto, em seu primeiro longa, demonstra sensibilidade para trabalhar com atores e cria alguns momentos que revelam potencial, especialmente na relação entre Binoche e Finley. Mas a falta de domínio narrativo e a dependência de clichês impedem o filme de ultrapassar a barreira do mediano. O resultado é uma obra que levanta uma bandeira importante, mas sem o peso dramático necessário para sustentar seu discurso.
“Crime na Rodovia Paraíso” é, no fim, um exercício de intenções que não encontra uma forma cinematográfica à altura de sua proposta. Juliette Binoche traz dignidade a cada cena, Hala Finley prova que tem talento para crescer, mas o conjunto se perde em uma estrada longa demais, com paisagens interessantes e poucos destinos memoráveis.
“Crime na Rodovia Paraíso”
Direção: Anna Gutto
Roteiro: Anna Gutto
Elenco: Juliette Binoche, Frank Grillo, Morgan Freeman, Hala Finley, Cameron Monaghan, Veronica Ferres
Disponível em: Prime Video
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