A estreia em longa duração da Heartworms, “Glutton for Punishment”, é um caso curioso de intenção mais forte do que forma. Existe ambição aqui, mas também hesitação. O disco se apresenta com os olhos vidrados na tradição gótica, mas com os pés enfiados num solo mais sintético e dançante, onde os códigos do pós-punk são preservados apenas na superfície. É uma obra que flerta com o risco, embora nem sempre saiba como lidar com ele.
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Há uma identidade em construção, mas ela ainda soa refém de referências bem evidentes. A estética é limpa, meticulosamente produzida, com cada batida milimetricamente desenhada para evocar um futuro distópico de pista de dança. O problema está menos no acabamento e mais na densidade criativa. O disco opera dentro de uma fórmula que tenta equilibrar o sombrio e o lúdico, mas em vários momentos parece perdido em um limbo entre o que deseja soar e o que consegue dizer.
Em termos conceituais, “Glutton for Punishment” ensaia diálogos com história, trauma, hiperconectividade e delírios urbanos. É um disco que tenta encontrar poesia em um mundo saturado de informação, mas que por vezes tropeça em seus próprios códigos. A narrativa que se esboça é interrompida por passagens que beiram o genérico, ou que abusam de atmosferas artificiais em vez de construir densidade dramática.
Ainda assim, não se trata de uma estreia dispensável. Pelo contrário, há coragem em vários momentos. O disco carrega uma pulsação sincera de quem busca algo que ainda não tem nome. A instrumentação é ousada o suficiente para criar pequenos desvios dentro de uma estrutura conhecida, e a performance vocal, mesmo sem reinventar nada, demonstra controle e alguma inquietação. É possível perceber que há uma artista tentando empurrar sua própria sombra para além do conforto.
As influências estão todas à mostra, mas em vez de colar com personalidade, elas por vezes anulam. O que poderia ser uma assinatura se dilui em um mar de efeitos que funcionam melhor separados do que juntos. Falta uma cola estética mais consistente, uma coerência que amarre a proposta com a entrega.
Ainda assim, é preciso reconhecer os méritos da estreia. Há recortes de ideias fortes que pedem continuidade, maturação e contexto. O disco acerta quando abraça a melancolia com ritmo, quando entende que o colapso pode ser dançante sem perder peso emocional. Esses momentos, embora pontuais, sustentam uma escuta curiosa.
“Glutton for Punishment” não é um passo em falso, mas tampouco é um manifesto. Funciona mais como rascunho de algo maior, um disco que parece ter sido feito com pressa, mas não com desleixo. Fica a impressão de que há muito a ser explorado, desde que a próxima etapa não seja engolida por filtros e poses.
No fim das contas, é um trabalho que importa menos pelo que entrega e mais pelo que insinua, pelo potencial de uma artista que ainda está tentando descobrir como soar única num espaço saturado de versões de si mesmas. É nesse espaço de ruído e promessa que o disco se sustenta. E é nesse tipo de ruído que sempre há algo valioso esperando para ser lapidado.
Nota: 79/100
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