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Crítica: “Invencível” (The Unbreakable Boy)

“Invencível” tenta se apresentar como um drama familiar edificante baseado em uma história real, centrado em Austin, um garoto com autismo e osteogênese imperfeita (doença dos ossos frágeis), e na relação com seu pai, Scott. Mas o que poderia ser uma obra sensível sobre neurodivergência e superação se torna um produto domesticado e excessivamente orientado para agradar um público específico, com apelo quase catequético. O filme fracassa justamente ao se propor a representar uma vivência complexa como a do autismo dentro da lógica previsível e sentimentalizada de uma narrativa inspiracional tradicional.

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Crítica: “Invencível” (The Unbreakable Boy)

A direção de Jon Gunn não só adota um tom excessivamente polido e artificial como recorre a uma estrutura dramática repleta de clichês típicos de filmes sobre doenças raras e relações familiares “difíceis”, incluindo o trope do pai ausente ou emocionalmente distante que precisa aprender a amar seu filho como ele é. Zachary Levi interpreta Scott com uma entrega que beira o automático, navegando entre o drama pessoal do alcoolismo mal resolvido e a culpa pelo distanciamento afetivo com o filho. Entretanto, o maior problema não está na atuação, mas na centralidade dada a esse personagem.

O verdadeiro protagonista, Austin, interpretado com carisma por Jacob Laval, aparece quase como uma coadjuvante na própria história. O título e o material promocional prometem um filme sobre ele, mas a montagem e o foco narrativo se concentram quase exclusivamente no arco de redenção do pai. A presença de Austin funciona como um catalisador moral para a transformação dos adultos ao redor — uma abordagem já desgastada e que trata a neurodivergência como metáfora para crescimento alheio, e não como experiência legítima e complexa por si só.

Há cenas pontuais que capturam bem a singularidade do olhar de Austin sobre o mundo — sua relação com a imaginação, sua espontaneidade e sua alegria genuína —, mas elas são rapidamente suprimidas em favor de subtramas paralelas ou resoluções fáceis. O uso de elementos religiosos discretos, porém perceptíveis, revela uma tentativa de alinhar o filme a uma audiência mais conservadora e devota, o que em si não seria um problema se não implicasse uma visão reducionista da neurodivergência como algo a ser “aceito” com resignação e fé.

A construção dramática do roteiro é marcada por uma previsibilidade estrutural: o filme antecipa seus conflitos e soluções com tamanha obviedade que a jornada emocional perde o impacto. É possível prever quase todos os desfechos a partir da metade da projeção, o que retira qualquer potência narrativa e aprofunda a sensação de que se trata de um projeto genérico, feito para cumprir fórmulas.

Além das limitações narrativas, o filme carrega uma carga ética problemática. Zachary Levi, que já fez declarações antivacina associando, de forma equivocada, imunizações ao autismo, representa justamente o pai de uma criança autista. Essa escolha de casting adiciona uma camada desconfortável e incoerente ao projeto — comprometendo sua credibilidade pública e gerando ruídos éticos sérios sobre a intenção por trás da produção.

A tentativa de humanizar Austin por meio da “alegria contagiante” se transforma em uma visão infantilizada e idealizada da pessoa autista, negando sua agência e complexidade. O filme falha em abordar a neurodiversidade como um espectro real de experiências, optando por uma versão diluída, digestível e confortável para um público que quer se emocionar, mas não se confrontar.

“Invencível” não é um filme sobre inclusão. É um filme sobre superação vista de fora, e essa perspectiva o torna incapaz de oferecer algo autêntico ou relevante ao debate sobre deficiência e representatividade no cinema. Em vez de dar voz ao menino cuja história o filme supostamente quer contar, ele silencia suas nuances em prol de um melodrama edificante, previsível e superficial.

Avaliação: 1 de 5.

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