Existe uma diferença brutal entre construir um filme de ação com peso dramático e apenas empilhar cenas de pancadaria entre cortes secos e motivações rasas. “K.O.” parece acreditar que basta colocar um lutador de MMA em crise existencial dentro de uma narrativa de redenção para conquistar algum nível de impacto emocional. Só que tudo o que o filme entrega, no fim das contas, é um produto plastificado, que se apoia em fórmulas batidas e decisões pouco inspiradas.
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É possível identificar logo de cara qual o desejo estético e moral do projeto: revisitar a clássica figura do herói quebrado que encontra sentido em meio ao caos externo. Mas a execução não sustenta essa ambição. A trama se constrói a partir de um acidente esportivo extremamente improvável e descola o espectador da verossimilhança logo nos primeiros minutos. O filme quer ser um estudo sobre culpa, violência e redenção, mas empacota isso como um thriller genérico com bandidos cartunescos e perseguições previsíveis.
Há uma tentativa de vincular drama pessoal com missão moral, mas a narrativa não amadurece o suficiente para fazer isso parecer crível. Os antagonistas são moldados como figuras grotescas, sem nenhuma nuance, e o conflito se desenrola com a mesma sutileza de um chute no estômago. A construção dos vilões, em particular, soa preguiçosa e risível, o que compromete qualquer tensão verdadeira. É difícil se engajar quando as ameaças parecem saídas de um filme B dos anos 90 e a dramaturgia não encontra um ponto de equilíbrio entre intensidade e exagero.
Do ponto de vista técnico, o longa até esboça competência. As cenas de luta são bem coreografadas, com boa cadência, impacto visual e ritmo dinâmico, mas estão sempre a serviço de uma narrativa pobre. Não há sustentação emocional por trás da violência. As coreografias funcionam isoladamente, mas não ajudam o filme a encontrar sua voz. Quando não está trocando socos, “K.O.” apenas tropeça em diálogos frágeis, dilemas simplificados e uma fotografia que prefere o óbvio ao expressivo.
A direção opta por uma abordagem funcional, quase televisiva, sem personalidade visual marcante. Os enquadramentos são mecânicos e raramente ajudam a traduzir a tensão interna do protagonista. O filme evita mergulhar de verdade nas contradições morais que levanta e prefere sempre a rota mais segura: a do conflito raso, da solução rápida, da emoção sem complexidade. A ideia de redenção acaba tratada como um atalho narrativo, e não como uma transformação real.
“K.O.” tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo: drama social, filme de vingança, thriller urbano e ação brutal. E acaba sendo pouco de cada uma. É um filme que fala sobre feridas profundas, mas que tem medo de sangrar de verdade. Um longa que quer discutir culpa, mas não escuta o silêncio. Que quer impactar com violência, mas não entende o que a torna potente. E assim termina reduzido a mais um exemplar esquecível do subgênero “homem em crise que resolve tudo com os punhos”.
Para um projeto que poderia tensionar os limites entre o físico e o emocional, entre o ringue e a rua, entre a dor e o acerto de contas, “K.O.” escolhe o caminho mais previsível. E aí, mesmo com músculos bem coreografados, falta coração, falta alma, falta cinema.
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