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Crítica: “Love Kills”

Texto: Ygor Monroe
10 de maio de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Poucos monstros combinam tão bem com o imaginário urbano quanto os vampiros. Criaturas moldadas pelo desejo, pela exclusão e pela eterna sensação de deslocamento encontram em “Love Kills” um novo território para habitar, longe dos castelos europeus ou das paisagens góticas já tão conhecidas. Aqui, a escuridão pulsa sob as luzes artificiais de São Paulo, em ruas onde a marginalização social e o sobrenatural parecem dividir o mesmo espaço, transformando a cidade em parte viva de uma narrativa que mistura romance, terror e comentário social com uma ousadia rara no cinema brasileiro.

Crítica: "Love Kills"
Crítica: “Love Kills”

Partindo de uma premissa que, por si só, já desperta curiosidade, o longa dirigido por Luiza Shelling Tubaldini acompanha Helena, uma jovem vampira que circula pelas sombras de uma região marcada pela exclusão e pelo abandono, enquanto desenvolve uma conexão inesperada com Marcos, um garçom alheio aos perigos e segredos que o cercam. O encontro entre esses dois mundos constrói a espinha dorsal de uma história que flerta com a delicadeza emocional ao mesmo tempo em que mergulha em impulsos violentos e dilemas morais bastante clássicos do gênero.

O fascínio de “Love Kills” está justamente em sua capacidade de transportar para o Brasil uma mitologia amplamente explorada pelo cinema internacional sem perder a identidade visual e o desejo de experimentar. É um projeto corajoso, que aposta em um terror estilizado e demonstra uma ambição artística admirável. A fotografia é um dos seus maiores triunfos. São Paulo surge hipnótica, revestida por luzes densas, contrastes intensos e uma atmosfera que transforma espaços cotidianos em cenários quase fantasmagóricos. Cada rua, cada esquina e cada ambiente carregam um peso visual que amplia a sensação de ameaça permanente.

A direção de arte também merece destaque absoluto. As cores, os efeitos práticos e a maquiagem ajudam a consolidar uma estética sofisticada que eleva o filme a um patamar visual pouco frequente dentro da fantasia nacional. Em muitos momentos, a experiência estética fala mais alto do que qualquer diálogo, construindo tensão e encanto com enorme eficiência.

As referências vampirescas estão presentes e perceptíveis. Ecos de “Nosferatu” aparecem na construção imagética e na relação entre desejo e monstruosidade, mas o filme também parece dialogar com produções mais populares que reinterpretam o vampiro como metáfora para questões sociais e emocionais. Aqui, a diretora sugere que essas criaturas representam corpos marginalizados, figuras empurradas para fora da norma, condenadas a viver nas bordas. Essa camada simbólica adiciona densidade ao longa e amplia sua leitura para além do terror convencional.

Ainda assim, a sensação de potencial parcialmente inexplorado acompanha parte da experiência. Fica a impressão de que a narrativa poderia abraçar de maneira ainda mais profunda elementos genuinamente brasileiros, incorporando com maior ousadia nossa própria cultura ao universo sobrenatural que propõe. A ambientação paulista é poderosa, mas existe espaço para uma identidade ainda mais particular, algo que tornasse essa adaptação menos dependente de códigos estrangeiros e mais conectada com imaginários locais.

O roteiro, embora funcional e capaz de sustentar bons momentos de tensão, romance e ação, oscila em intensidade. Algumas decisões dramáticas parecem menos impactantes do que poderiam, e certos conflitos emocionais pediam um desenvolvimento mais afiado. Ainda assim, o elenco entrega comprometimento e ajuda a dar consistência aos personagens, especialmente nos momentos em que o texto exige vulnerabilidade.

Talvez esse seja o maior mérito de “Love Kills”. Mesmo quando tropeça em suas limitações narrativas, o filme jamais perde sua identidade visual nem sua vontade de propor algo diferente. Ver uma produção brasileira investir em fantasia sombria, vampirismo e estética sofisticada já é, por si só, um acontecimento digno de celebração.

Em uma cinematografia onde o terror ainda luta por espaço e reconhecimento, trabalhos assim ajudam a expandir fronteiras e mostram que ainda existem caminhos pouco explorados esperando para serem ocupados. “Love Kills” pode não reinventar o mito vampírico, mas oferece uma releitura envolvente, elegante e visualmente marcante, provando que monstros também podem encontrar abrigo sob o céu cinza de São Paulo.

“Love Kills”
Direção:
Luiza Shelling Tubaldini
Roteiro: Luiza Shelling Tubaldini
Elenco: Tainá Medina, Thais Lago, Erom Cordeiro, Gabriel Stauffer
Disponível em: Nos cinemas

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: CríticaErom CordeiroGabriel StaufferResenhaReviewTainá MedinaThais Lago

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