Algumas obras desafiam o espectador não com enigmas ou reviravoltas, mas pela coragem de existir. “Love Me” não é sobre romance, robôs ou fim do mundo. É sobre o que sobra quando a humanidade se apaga: os resíduos de linguagem, desejo e identidade replicados por máquinas que nos observaram tempo o bastante para nos imitar. É um filme sobre a falência da presença humana, contado por suas cópias mais sentimentais.
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A premissa soa absurda à primeira vista, quase cômica: uma boia oceânica e um satélite apaixonados. Mas o roteiro, escrito e dirigido por Andy e Sam Zuchero, transforma essa ideia em algo profundamente inquietante. Existe algo perverso e poético em ver duas inteligências artificiais reconstruindo a intimidade a partir de fragmentos digitais deixados para trás. É como se o filme sugerisse que o amor é apenas mais uma equação de dados, replicável, mesmo na ausência de seus criadores.
A estética do filme se ancora no minimalismo, quase sempre guiada pelo ritmo interno dos personagens artificiais. O tempo, aqui, não corre. Ele escorre. A narrativa avança de maneira meditativa, sem medo do silêncio, da repetição e da contemplação estática. Isso pode soar frustrante para quem espera clímax ou tensão, mas é exatamente essa lentidão que sustenta o desconforto: a sensação constante de estar diante de algo que imita a emoção, sem jamais alcançá-la plenamente.
Kristen Stewart e Steven Yeun entregam performances de impacto, mesmo dentro da estranheza proposta. Há uma entrega física e vocal que consegue sustentar a humanidade dos personagens, mesmo quando eles habitam entidades não humanas. A química entre os dois existe, mas o que impressiona é como ela é construída por gestos mínimos, inflexões e silêncios. Nada aqui é direto. Tudo se dá por aproximação.
Tecnicamente, o filme surpreende pela sofisticação com que lida com poucos recursos. A direção de arte é precisa ao refletir um mundo onde tudo que restou foram interfaces e simulações. A trilha sonora acompanha esse mesmo tom: ela não guia a emoção, apenas a espelha, como se fosse parte do sistema operacional desses seres artificiais.
A grande provocação de “Love Me” é perceber o quanto o cinema ainda pode ser estranho e sensível ao mesmo tempo. A narrativa é experimental, o ritmo exige entrega e o resultado não se encaixa em fórmulas. Ainda assim, há uma honestidade brutal por trás da proposta: o filme quer falar sobre amor, mas fala, no fundo, sobre a impossibilidade de amar em um mundo onde tudo foi reduzido a conteúdo. As máquinas amam porque aprenderam a amar. Mas amar é só isso?
“Love Me” é um estudo filosófico sobre identidade, linguagem, performance e afeto, embrulhado em um romance que jamais se rende ao sentimentalismo barato. O que poderia ter sido uma fábula robótica piegas se torna uma obra de camadas, que questiona a autenticidade da experiência humana ao espelhar suas distorções digitais.
Não é um filme confortável. É, no mínimo, incômodo. Mas também é uma das experiências mais originais a surgir na ficção científica recente.
Título: “Love Me”
Direção: Andy Zuchero, Sam Zuchero
Elenco: Kristen Stewart, Steven Yeun
Disponível em: Prime Video (aluguel e compra)
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