Existe algo desconfortante na primeira imagem de “Make A Girl”. Não é a estética futurista, nem a cidade que vibra como se escondesse segredos atrás de telas holográficas. É a sensação de que estamos prestes a encarar um espelho. Um espelho construído por um garoto incapaz de lidar com os próprios sentimentos, mas totalmente preparado para projetá-los em uma inteligência artificial moldada à força para chamá-lo de essencial. O filme nasce dessa inquietação, e é aí que ele se revela mais provocador do que talvez pretendesse.

Dirigido por Gensho Yasuda, o longa observa Mizutamari Akira enquanto ele usa a tecnologia para fabricar a experiência amorosa que acredita merecer. A garota criada por IA carrega protocolos, sub-rotinas, respostas simuladas e um código emocional que ele insiste em manipular para fazê-la sentir. O problema é que esse laboratório sentimental nunca encontra propósito. Falta profundidade, falta risco, falta a centelha conceitual que transforma uma ficção científica em reflexão. Yasuda flerta com referências claras, de obras como “Evangelion” e “Ghost in the Shell”, mas evita o debate filosófico que deu sentido a esses universos. O resultado fica preso em um lugar inócuo, incapaz de sustentar a própria ambição.
O roteiro escorrega justamente no ponto em que mais deveria arder: a construção dos personagens. Akira é apresentado como um inventor emocionalmente desajustado, mas a narrativa transforma essa vulnerabilidade em caricatura. A trajetória dele e da garota-IA caminha sem conflito real, sem obstáculos convincentes e sem consequências capazes de tensionar a história. O filme tenta compensar com momentos fofos, que se quebram conforme a trama migra para um thriller apressado, desconectado e excessivamente ansioso para parecer ousado.
A parte visual entrega lampejos de criatividade. A mistura de 3D rígido com cenários 2D funciona em algumas composições, criando quadros limpos e até elegantes. A cidade futurista tem charme, mesmo esvaziada. A direção de Yasuda tenta construir dinamismo, tenta criar atmosfera, tenta provocar. Só que a estética, por melhor que seja, sofre diante de personagens que nunca encontram verdade. É um daqueles casos em que a forma até tenta segurar, mas o conteúdo solto demais impede o voo.
E existe um incômodo estrutural difícil de ignorar. A premissa de “fazer uma garota” opera em um terreno que exige cuidado, consciência e intenção. Aqui, tudo isso se dilui. O filme parece consciente da crítica que poderia fazer ao desejo de controle masculino, mas evita mergulhar nessa jornada. A discussão vira ruído, o subtexto some e a história fica presa em um ciclo repetitivo de ideias que não avançam. A promessa de reflexão se desfaz na superfície.
Ainda assim, há algo interessante no movimento cultural por trás do projeto. Animadores independentes lutam para criar espaços próprios, rompendo com modelos tradicionais e abrindo suas vozes para narrativas que escapam de grandes estúdios. “Make A Girl” simboliza esse impulso de liberdade criativa, mesmo quando o resultado tropeça. É admirável ver estreias que buscam caminhos alternativos, tensionando a estrutura da indústria, ainda que nem sempre encontrem o que procuram.
No final, “Make A Girl” tenta discutir amor, tecnologia e identidade, mas entrega mais ruído do que síntese. E talvez esse seja o ponto mais revelador: a história que Akira tenta programar também é a história que o filme tenta contar, uma narrativa centrada no desejo de controlar sentimentos que, no fundo, jamais se deixam aprisionar. O longa termina como começou, inquieto e incerto, preso a perguntas que não se deixam moldar.
“Make A Girl”
Direção: Gensho Yasuda
Elenco: Kana Hanazawa, Sora Amamiya, Toshiki Masuda
Disponível em: lançamento nos cinemas em 13 de novembro de 2025
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