“O Estúdio” entra em cena como um raro exemplar de comédia que entende onde pisa e, mais importante, sabe exatamente que tipo de desconforto quer provocar. Seth Rogen, num de seus momentos mais controlados e tecnicamente certeiros, interpreta Matt Remick com uma mistura instável de afeto pelo cinema e desprezo por tudo o que o cerca. É a comédia da falência ética contada com os olhos arregalados de quem ainda tenta salvar algo da arte no meio da engrenagem corporativa.
Do mesmo diretor de “Noites Brutais”, “A Hora Do Mal” estreia em agosto no Brasil

A série trabalha com tensão narrativa a partir daquilo que seria ordinário. Não há superpoderes, conspirações planetárias ou colapsos políticos, mas a pressão cotidiana de manter um estúdio funcionando no século XXI. E isso basta. O nível de estresse que a série consegue imprimir em cenas que giram em torno de marketing, casting e notas de roteiro é assustadoramente eficaz.
O mérito vem de uma linguagem visual que não cede à comodidade. A câmera persegue os personagens como se fosse uma testemunha nervosa. São planos longos, tomados sem cortes óbvios, criando uma atmosfera de pânico sustentado. Essa escolha técnica faz com que tudo pareça mais urgente, mais errado, mais insuportável. O espectador não tem respiro, porque a série não quer que ele relaxe. Ela quer que ele assista à indústria tentando manter a pose enquanto desaba por dentro.
O roteiro é uma ode ao caos bem-escrito. Piadas internas, jargões do audiovisual e referências cinéfilas convivem com diálogos que beiram o absurdo, mas nunca perdem a verossimilhança dentro do ambiente onde tudo pode ser justificado como branding ou tendência. Não é apenas uma sátira, é uma crônica disfarçada de comédia.
Seth Rogen não está sozinho. Catherine O’Hara, Kathryn Hahn, Ike Barinholtz e Chase Sui Wonders compõem um núcleo que opera com precisão. Cada um representa um arquétipo do mercado, mas são dotados de camadas, contradições, exaustão acumulada e ambição. Não há vilões. Só gente tentando manter o próprio emprego enquanto finge que acredita em cinema.
O que torna “O Estúdio” tão eficiente, porém, é sua recusa em oferecer catarse. A série entende que o embate entre arte e dinheiro não tem solução. Tem contrato. Tem pitch. Tem reunião. O protagonista é alguém que ainda acredita que pode fazer algo autêntico dentro dessa engrenagem, mas a cada episódio, fica evidente que essa crença é uma forma de autoengano. Ele não é o salvador do estúdio, é mais um elo de uma cadeia que só gira porque alguém está disposto a fingir que ainda ama tudo isso.
“O Estúdio” não quer ser uma série “pra relaxar”. Ela exige atenção, provoca riso nervoso e entrega um retrato afiado da disfunção sistêmica por trás da cultura pop. Em vez de cair na nostalgia ou no cinismo raso, ela mostra que o verdadeiro terror da indústria está no fato de que, mesmo quando tudo desmorona, ainda se consegue rir. E talvez isso seja a coisa mais perversa de todas.
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