Existem filmes que nos atropelam. “O Paraíso dos Espinhos” é um desses. À primeira vista, tudo parece calmo: plantações verdes de durião se estendem como um abraço pela tela, o amor de Thongkam e Sek pulsa de forma doce, e há uma aura quase espiritual pairando sobre aquela fazenda isolada. Só que o que se constrói com tanto cuidado, pode ruir num piscar de olhos. E o longa do diretor Naruebet Kuno faz questão de nos lembrar disso o tempo inteiro.
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A narrativa mergulha fundo em feridas que a sociedade insiste em ignorar. Thongkam e Sek vivem juntos há anos, dividindo a lida pesada no pomar, os pequenos prazeres do cotidiano e o sonho de envelhecer lado a lado. O problema é que sonhos não valem nada diante de leis que se recusam a reconhecer o amor de duas pessoas do mesmo sexo. Quando Sek morre em um acidente brutal, Thongkam fica reduzido a quase nada: um “estranho” sem direitos legais, incapaz até de decidir sobre o tratamento do homem que ama na mesa de cirurgia. É violento. É real. É revoltante.
Logo, a fazenda, que representava o fruto do amor e do trabalho conjunto dos dois, vira palco de uma guerra silenciosa e venenosa. A mãe de Sek e Mo, sua filha adotiva, desembarcam na propriedade carregando mágoas, rancores e uma ganância capaz de corroer qualquer laço. Jingna, o jardineiro, completa o microcosmo tenso que se forma ali. Cada cena é um fio puxado desse novelo confuso, cheio de dores antigas e ambições mesquinhas. Quem tem razão? Quem é o vilão? Em “O Paraíso dos Espinhos”, essas respostas mudam de cena para cena.
É quase um melodrama, mas do tipo que tem algo poderoso a dizer. A cada revelação, a trama se aprofunda em nuances morais desconfortáveis. Sek não era o santo que Thongkam acreditava. Mo, tão ferida pelas humilhações do passado, acaba abraçando o pior de si mesma. A mãe de Sek é movida por um orgulho cego que beira o destrutivo. O espectador fica esmagado entre querer entender, querer perdoar e querer que todos paguem caro pelos erros cometidos.
Visualmente, o filme é um deslumbre. O contraste entre o verde quase mágico do pomar e a escuridão interna dos personagens cria uma atmosfera hipnótica. A trilha sonora acerta em cheio, enfatizando o peso de cada silêncio e a angústia de cada escolha. Dá para sentir a alma do filme vibrar naqueles acordes tensos, naquelas pausas que parecem durar uma eternidade.
O elenco entrega interpretações que não pedem licença para se instalar na mente do público. Jeff Satur, como Thongkam, coloca uma vulnerabilidade crua em cada gesto. É impossível não se solidarizar com sua dor, mesmo quando ele próprio começa a se perder em decisões questionáveis. Engfa Waraha, que já havia impressionado em “Bangkok Blossom”, está absurda como Mo. O olhar dela transita entre o medo, o ressentimento e o puro desespero de alguém que passou tempo demais tentando provar seu valor num lar que nunca a acolheu de verdade. E isso transborda na tela.
Ao final, “O Paraíso dos Espinhos” deixa cicatrizes. É um filme que fala do amor, mas também da forma como as estruturas sociais e especialmente o preconceito institucionalizado podem esmagar esse amor sem piedade. A briga por herança parece pequena perto do que está realmente em jogo: o direito de existir, amar e ter reconhecido o próprio lugar no mundo. É um drama humano, cru, que planta espinhos na garganta do espectador e não pede desculpas por isso.
Recomendo? Recomendo. Mas prepare o estômago e o coração. É um daqueles filmes que fazem a gente pausar, respirar fundo e só depois apertar o play de novo. Porque a cada nova revelação, fica mais difícil escolher de quem realmente tomar o lado. E talvez esse seja o maior acerto do filme: não oferecer respostas fáceis.
“O Paraíso dos Espinhos“
Direção: Naruebet Kuno
Elenco: Engfa Waraha, Jeff Satur, Pongsakorn, Mettarikanon
Disponível na Netflix
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