A Netflix até tentou empurrar “Olympo” como a sucessora direta de “Elite”. Tem jovens bonitos, tensão sexual, intrigas de corredor, festas cheias de neon e decisões duvidosas tomadas sob luz de LED. Mas essa comparação talvez seja injusta. Com a ambição de parecer uma série de mistério pop com gosto de escândalo, “Olympo” na verdade quer ir além do colégio badalado e mergulhar em um terreno bem mais complexo: o do esporte de alto rendimento e seus pactos silenciosos.
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Ambientada num centro de treinamento fictício nos Pireneus, onde os melhores atletas do país treinam como se o futuro da nação dependesse disso, a série criada por Jan Matheu, Laia Foguet e Ibai Abad não finge que tudo é só sobre disciplina e foco. Ela entende que onde há performance, há também pressão, e onde há pressão, há sempre alguém disposto a trapacear. A estrutura narrativa parte justamente desse desequilíbrio: quando a capitã do time de nado sincronizado percebe que algo não bate nos treinos da colega, ela resolve investigar. E o que começa como desconfiança se transforma em um mergulho nas entranhas de um sistema esportivo que parece mais interessado em resultados do que em atletas.
É aqui que “Olympo” surpreende. Por mais que adote os clichês do drama juvenil espanhol contemporâneo, a série não se limita a repetir fórmulas. Ela se arrisca a discutir o doping como metáfora e realidade, colocando o dilema ético no centro da narrativa. O que vale mais: a vitória ou o caminho até ela? Até que ponto a excelência justifica o sacrifício do corpo e da mente? A série não responde de forma definitiva, mas também não alivia. Mostra como essas perguntas atravessam a vida dos jovens ali dentro com força devastadora.
A personagem Amaia, interpretada por Clara Galle, funciona como a bússola moral do enredo, mas não é santificada nem poupada pela série. Há uma tensão real entre idealismo e sobrevivência, entre o sonho olímpico e os bastidores obscuros de quem paga essa conta. Mesmo quando o roteiro recorre a soluções dramáticas previsíveis ou personagens secundários estereotipados, o conflito central se mantém forte o suficiente para sustentar o interesse. Há uma sensação constante de que tudo pode desmoronar a qualquer segundo, não por causa de um segredo, mas porque viver em alta performance é viver no limite.
Visualmente, a série é elegante, até demais. Tudo é limpo, bonito, bem iluminado, como se a estética da vitória estivesse sempre no controle. Mas isso também funciona como recurso narrativo: o brilho é usado como disfarce para uma estrutura doente, onde ninguém está 100% limpo, e todo mundo tem algo a esconder. A música, a montagem e a direção sustentam o ritmo com competência, mesmo quando o roteiro vacila ou repete algumas ideias.
“Olympo” talvez não reinvente as narrativas de esporte, mas tem a coragem de encarar um tema que raramente é tratado com a devida complexidade em séries voltadas ao público jovem. É uma produção que entende o peso simbólico que um corpo atlético carrega, e o quanto ele pode ser manipulado por sistemas que transformam medalhas em moeda política. Ao invés de idolatrar seus personagens, a série os expõe. Mostra que, por trás de cada conquista, pode haver algo podre, e que às vezes, nem o esforço mais honesto é suficiente para competir em pé de igualdade.
Ao fim da temporada, o saldo é claro: “Olympo” tem alma, tem conflito e tem algo a dizer. Não é só sobre vencer, mas sobre o que estamos dispostos a perder para chegar lá. E essa é uma conversa que vale a pena acompanhar, mesmo que com óculos de proteção, porque o mergulho é fundo e nem sempre bonito de ver.
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