“Perdido na Montanha” não é só um filme de aventura. É também um exercício de resgate histórico, uma dramatização sensível de um dos casos mais emblemáticos da história americana envolvendo desaparecimento infantil. Baseado na trajetória real de Donn Fendler, que em 1939 sobreviveu por nove dias sozinho nas florestas do Maine aos 12 anos de idade, o longa dá corpo e contexto a um episódio que foi muito mais do que manchete. Foi comoção nacional, oração coletiva e, acima de tudo, um símbolo de fé, resistência e instinto.
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A narrativa, conduzida com discrição pela direção de Andrew Boodhoo Kightlinger, evita a tentação do espetáculo. O que o filme acerta em cheio é entender que a força dessa história está na sua simplicidade. Um menino comum, perdido em uma montanha real, sem superpoderes, sem dispositivos tecnológicos, apenas com a determinação de sobreviver. Há algo de primal, quase atávico, em acompanhar Donn enquanto ele enfrenta frio, fome, sede e medo tudo com o olhar de uma criança que ainda não entende a dimensão completa do próprio risco.
Luke David Blumm, no papel de Donn, sustenta com dignidade a espinha dorsal do filme. Sem precisar verbalizar constantemente seus sentimentos, ele transmite com o corpo e os olhos o esgotamento, a esperança, o desespero e a fé. Não há grandes reviravoltas, não há truques de roteiro. Tudo está no tempo das coisas, no correr das águas do riacho, nos sons das folhas esmagadas sob os pés, no silêncio espesso da mata. A direção de fotografia reforça essa sobriedade, buscando a beleza da natureza, mas sem estetizar a tragédia.
O filme também acerta ao incluir discretamente o impacto que a história causou no povo do Maine. Em 1939, o desaparecimento de Donn foi acompanhado por todo o país, mobilizou rádios, jornais, cartas e orações. E isso não é apenas pano de fundo: é o que transforma a história pessoal de Donn em uma lembrança coletiva. Os créditos e bastidores reforçam essa dimensão afetiva e comunitária, mostrando que Donn não foi apenas um sobrevivente, mas uma figura que, por décadas, retornava a escolas para compartilhar sua experiência com crianças e professores. Isso dá ao filme uma camada adicional: a de legado.
Mesmo que “Perdido na Montanha” não tenha a ambição de ser uma superprodução, sua força está na reverência que oferece à história real. Não é sobre criar suspense barato. É sobre respeitar o que realmente aconteceu e como isso marcou gerações. É um daqueles filmes em que a delicadeza pesa mais do que o drama forçado, e o impacto vem muito mais do que se vive internamente do que das imagens em si.
Ao fim, o longa funciona como uma homenagem à resiliência humana, à natureza como força viva e ao poder de uma história bem contada, mesmo que sem alardes. Porque nem toda narrativa de sobrevivência precisa ser gritante. Algumas funcionam melhor no sussurro da floresta.
“Perdido na Montanha”
Direção: Andrew Boodhoo Kightlinger
Elenco: Luke David Blumm, Ethan Slater, Caitlin FitzGerald
Disponível na Netflix.
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