Certas obras de terror operam naquele suspenso quase invisível entre um fôlego e o próximo, momento em que o público percebe que a narrativa ameaça desmoronar. “Push – No Limite do Medo” tenta operar nessa lógica, mas a experiência revela uma obra que entende a geometria do suspense e, ao mesmo tempo, falha em transformar essa precisão em algo memorável. O filme constrói sua atmosfera com paciência cirúrgica, como quem se aproxima devagar de um corredor sem iluminação, porém tropeça quando precisa entregar impacto real.

A premissa acompanha Natalie Flores, vivida por Alicia Sanz, uma corretora de imóveis tentando reorganizar a vida enquanto enfrenta o último mês de gravidez e o fantasma do noivo morto. Esse ponto de partida tem força dramática suficiente para conduzir um suspense psicológico denso, porque gravidez no cinema de terror sempre opera como um amplificador: torna a vulnerabilidade extrema, transforma o corpo em campo de batalha, cria gestos que carregam duplo peso. O filme poderia ter explorado essa camada com mais profundidade, já que a maternidade aqui surge como conceito, não como tensão trabalhada.
A direção aposta em um início de ritmo lento, investindo em longos planos de deslocamento, sombras que atravessam a moldura e uma mise-en-scène que flerta com o minimalismo de produções como “La Casa Muda”. Esse cuidado inicial gera expectativa. Há composição. Há promessa visual. Há uma tentativa clara de fazer o espectador observar cada canto escuro como se fosse cúmplice da protagonista. Só que essa construção se perde rapidamente quando o terror se apoia em soluções previsíveis demais. A narrativa começa a repetir fórmulas conhecidas do subgênero invasão domiciliar e, quando isso acontece, a atmosfera antes calculada se torna um jogo que o público já conhece de cor.
A fotografia, que deveria guiar o olhar, mergulha o filme em uma escuridão exagerada, quase artificial. Não se trata do escuro que provoca tensão, e sim do escuro que sabota a própria mise-en-scène. Cenários inteiros parecem iluminados por descuido, prejudicando cenas que mereciam clareza para construir medo real. Em contrapartida, alguns movimentos de câmera são interessantes, principalmente no primeiro ato, quando o filme ainda acredita que pode instigar pela forma. Falta consistência para manter essa ambição até o final.
A relação entre Natalie e seu perseguidor sustenta a narrativa pelo choque físico, não pelo psicológico. É um duelo que funciona melhor quando opera no silêncio, quando a direção abandona diálogos expositivos e deixa que a tensão se instale a partir de gestos. Ainda assim, o roteiro perde fôlego ao recusar qualquer torção significativa. A história avança pelo caminho mais óbvio e deixa claro que enxerga o terror como obstáculo físico, e não como drama que poderia escalar com mais complexidade.
Essa fragilidade se torna ainda mais evidente quando o filme migra para o ambiente hospitalar na reta final. É uma transição que deveria ampliar o escopo e intensificar o desespero, mas entregue de modo tão subaproveitado que a sensação é de que o longa desperdiça seu próprio clímax. Além disso, policiais surgem sem função dramática real, agem como peças descartáveis e reforçam um problema recorrente no subgênero: personagens que entram apenas para cumprir tabela e não para mover a história.
Ainda assim, “Push – No Limite do Medo” não é um desastre. Alicia Sanz sustenta a protagonista com entrega física convincente, e algumas cenas de dor e fuga funcionam pelo desconforto visceral. A duração enxuta também ajuda a manter a narrativa em movimento. Falta impacto, falta coragem estética, falta uma virada capaz de marcar o imaginário, mas há elementos que revelam intenção e esforço.
O filme cumpre o mínimo enquanto tentativa de suspense compacto, mas deixa claro que poderia ter ousado muito mais. Tem ritmo, tem conceito, tem momentos de tensão eficazes, embora a experiência geral entregue menos do que promete.
“Push – No Limite do Medo”
Direção: David Charbonier, Justin Powell
Elenco: Alicia Sanz, Raul Castillo, Gore Abrams
Disponível nos cinemas a partir de 11 de dezembro de 2025
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