É curioso perceber como o fenômeno “Round 6” se consolidou como uma das experiências televisivas mais cruas, inquietantes e ferozmente políticas que a Netflix já entregou. A terceira temporada, lançada em 2025, chega como um encerramento inevitável, quase premeditado desde o momento em que Seong Gi-hun aceitou, lá atrás, o primeiro convite para brincar. Ainda que muitos já intuíssem que não haveria espaço para finais felizes nessa história, o impacto desse último arco não diminui. Pelo contrário, potencializa o incômodo, desenterra feridas deixadas em aberto desde a estreia e faz questão de cutucá-las.
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O criador Hwang Dong-hyuk mantém o fôlego narrativo em alta, guiando cada movimento com uma convicção brutal. Não há ilusões em “Round 6”: o capitalismo é um jogo sangrento, as pessoas vão se matar por migalhas, e quem puxa as cordas permanece intocado, confortável, bebendo uísque caro enquanto a plebe se devora por dinheiro. Se alguém achou que haveria redenção total, enganou-se. A terceira temporada é ainda mais amarga, mais sombria e mais retorcida que suas antecessoras.
Logo nos primeiros episódios, vemos Gi-hun transformado em algo quase irreconhecível. O homem que, na primeira temporada, tropeçava pela arena com um olhar de criança perdida, agora transita pelos jogos com frieza cirúrgica. Não há mais espaço para ingenuidade ou sorte cega. Gi-hun virou um competidor metódico, dono de um código moral tão inflexível quanto mortal. É um arco que assusta e fascina ao mesmo tempo, mostrando o quanto ele foi despedaçado pelos eventos anteriores. Se antes ele vencia por acaso, hoje vence porque sabe exatamente onde golpear.
Essa evolução do protagonista só se sustenta por conta da performance colossal de Lee Jung-jae. O ator carrega a dor acumulada de três temporadas nos ombros, deixando transparecer a culpa, o medo e o desprezo por tudo aquilo que ele mesmo foi obrigado a se tornar. A forma como o roteiro (e o próprio Lee) deixam esse peso escorrer pelos olhos de Gi-hun, mesmo nos momentos em que ele parece mais letal, é devastadora.
Em contrapartida, o Front Man, vivido por Lee Byung-hun, finalmente ganha camadas adicionais. Sua máscara cai, literalmente, e o confronto entre ele e Gi-hun, que deveria ser o ápice catártico de toda a série, soa estranho, quase vazio. Talvez esse seja o ponto: “Round 6” não se interessa em entregar catarse, prefere esfregar o vazio existencial na cara do público. A tão aguardada revelação do Front Man ocorre de forma anticlimática, expondo a aridez de toda aquela jornada. No final das contas, o rosto por trás do jogo não tem nada de monstruoso. É só mais um homem corroído pelo poder.
Ainda que o texto seja repleto de cinismo, Hwang encontra maneiras engenhosas de manter o espectador investido. Os jogos, claro, continuam sendo o motor do espetáculo. Nesta temporada, são três desafios centrais, todos desenhados para provocar o pior dos competidores. A criatividade de Hwang em conceber provas infantis transformadas em armadilhas mortais segue intacta, o que deixa tudo ainda mais perverso. O diretor entende que o choque só funciona porque existe uma familiaridade ingênua com essas brincadeiras. Ele retorce memórias de infância para escancarar o quão frágil é a nossa suposta civilidade.
Se por um lado a temporada tem méritos estéticos e narrativos claros, do outro há tropeços difíceis de ignorar. A trilha sonora perde força em comparação aos trabalhos anteriores, substituída por faixas menos memoráveis que não acompanham o peso emocional das cenas. Alguns personagens coadjuvantes, que prometiam destinos grandiosos, têm mortes rápidas demais ou mal exploradas. É como se o roteiro estivesse mais interessado na engrenagem macro do espetáculo do que nas pequenas histórias que poderiam render choques ainda maiores. O excesso de melodrama em certos diálogos também destoa do tom cirúrgico que “Round 6” havia cultivado.
Ainda assim, a temporada final preserva o maior trunfo da série: a capacidade de apontar o dedo para o público e perguntar, sem piedade, até onde você iria por dinheiro. Isso se manifesta de forma desconfortável quando vemos jogadores claramente exaustos, traumatizados, quase implorando para parar, mas aceitando seguir adiante porque é isso ou nada. No fundo, todos querem um final feliz, mesmo quando o roteiro, implacável, faz questão de repetir que finais felizes não existem nesse universo.
É significativo, por exemplo, que o último episódio traga Cate Blanchett como uma nova recrutadora, desta vez para o mercado americano. A escolha de Hwang em colocar uma mulher poderosa nesse papel, fria, calculista, é um golpe de mestre, sugerindo que o espetáculo vai se perpetuar em outras geografias, com outras regras, mas o mesmo jogo sujo. É o capitalismo globalizado, disfarçado de entretenimento. A aparição dela soa como uma promessa agridoce de expansão para a franquia, algo que Hwang encerra com gosto de derrota coletiva, não de conquista.
No fim das contas, “Round 6” entrega aquilo que se propôs desde o início: um retrato grotesco do mundo em que vivemos, onde o fracasso é culpa sua, a vitória é privilégio de poucos, e o sofrimento alheio é entretenimento para quem pode pagar. Como televisão, é brilhante. Como experiência humana, é quase insuportável. E, talvez, essa tenha sido sempre a intenção.
“Round 6″ (2025)
Direção: Hwang Dong-hyuk
Elenco: Lee Jung-jae, Lee Byung-hun, Wi Ha-joon, Im Si-wan, Kang Ha-neul, Park Gyu-young, Cate Blanchett
Disponível na Netflix
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