“Sandman” sempre foi mais do que um exercício de mitologia. É uma obra que questiona o próprio peso de se contar histórias, o impacto de sonhar e o custo de manter controle sobre mundos simbólicos. A segunda temporada reforça essa ambição, mesmo tropeçando nas limitações de ritmo e escala. Em vez de avançar com pressa, a série tenta reconectar seu protagonista com os próprios limites de sua jornada, mas nem sempre sustenta a densidade do que propõe.
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A nova leva de episódios mergulha em dilemas cada vez mais íntimos, o que exige que o espectador abandone a ideia de uma trama tradicional. Morpheus está menos interessado em vencer inimigos e mais preso às consequências de seu orgulho. A essência aqui é o peso da responsabilidade, não a glória do poder. Existe uma consciência madura em como o roteiro evita respostas fáceis: os atos do Rei dos Sonhos têm eco, reverberam e cobram preço.
Visualmente, a série mantém a proposta de uma estética onírica, mas algo mudou. A escala parece reduzida, o impacto visual mais econômico. Os efeitos continuam elegantes e os figurinos fazem sua parte, porém há momentos em que a ambição do texto supera a execução visual. A sensação de urgência também cede espaço para decisões narrativas mais contemplativas, o que pode afastar espectadores que buscam ritmo acelerado. A série exige atenção e paciência. Recompensa quem observa os detalhes. Mas talvez frustre quem espera um clímax a cada episódio.
A escolha de adaptar arcos específicos da obra original mostra o compromisso com o material-fonte, mas também escancara o desafio de transpor um universo tão simbólico para o formato episódico. As alterações narrativas são inteligentes, e servem a dois propósitos claros: atualizar aspectos datados e integrar histórias pontuais em um fluxo contínuo. A decisão de reescrever personagens com mais agência e nuance é um dos pontos altos desta temporada. As mulheres ganham voz, os antagonismos são mais complexos e as figuras periféricas deixam de ser adereços para se tornarem peças fundamentais.
O elenco compreende a responsabilidade desse universo e entrega performances precisas. Tom Sturridge mantém a serenidade cortante de Morpheus, enquanto Mason Alexander Park, como Desejo, rouba cenas com intensidade e timing afiado. Há uma inteligência dramática na forma como o texto explora a fragilidade dos Perpétuos, sem reduzi-los a arquétipos imutáveis. Eles falham, hesitam, duvidam. E é exatamente aí que a série encontra potência.
Mesmo com todos os méritos, há um claro desconforto em sua estrutura. A tentativa de condensar narrativas longas em uma temporada curta cobra um preço. O ritmo às vezes engasga, o tempo de tela de personagens importantes parece desigual e certas resoluções soam apressadas. O potencial do mundo de “Sandman” é imenso demais para caber sem cortes dentro de uma fórmula episódica padrão. Isso exige concessões que, por vezes, enfraquecem o impacto da obra.
Ainda assim, a segunda temporada de “Sandman” é uma realização digna, sobretudo por resistir ao impulso de simplificar temas espinhosos. A adaptação respeita a inteligência de quem assiste e mantém viva a pergunta essencial que a obra sempre levantou: o que significa sonhar em um mundo que insiste em acordar brutalmente?
“Sandman” não quer agradar. Quer inquietar. E cumpre esse papel com firmeza, mesmo que imperfeita.
Título: “Sandman” – 2ª temporada
Direção: Allan Heinberg
Elenco: Tom Sturridge, Vivienne Acheampong, Kirby Howell-Baptiste, Esme Creed-Miles, Mason Alexander Park, Gwendoline Christie, entre outros
Disponível em: Netflix
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