“Superman” não é só o retorno triunfal do herói mais icônico dos quadrinhos ao cinema. É também uma ode escancarada à esperança, ao colorido e ao absurdo que sempre foram o coração pulsante das HQs, mas que Hollywood teimava em domesticar. James Gunn sabe disso melhor do que ninguém e, livre das amarras que prendem boa parte dos filmes de super-herói atuais, constrói algo que é ao mesmo tempo grandioso, humano e deliciosamente cartunesco.
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Desde a primeira aparição de David Corenswet em cena, fica impossível não comprar a ideia. Ele não interpreta Superman: ele É o Superman. E o mais interessante é perceber como, na leitura de Gunn, Clark Kent não surge como uma “máscara” para o kryptoniano, nem vice-versa. Superman e Clark coexistem de forma indissociável, sempre guiados pela mesma bússola moral que aponta para a compaixão, o otimismo e a fé nas pessoas, por mais imperfeitas que sejam.
Essa escolha é quase subversiva em uma época em que o cinismo virou regra. O filme ri alto das acusações de que seus valores são antiquados. Pelo contrário, faz questão de encher a tela de cores, efeitos práticos e CGI que não se envergonha de parecer fantástico. É o tipo de espetáculo que abraça a própria ingenuidade, quase como se dissesse ao público: “a magia sempre fez parte dessa brincadeira, e vocês é que se esqueceram disso.”
Rachel Brosnahan surge como a melhor Lois Lane que o cinema já teve em décadas. O filme faz algo inédito com a relação entre Lois e Superman, carregando o romance para lugares que os roteiristas raramente ousaram explorar, mesmo que deixe algumas pontas soltas que, inevitavelmente, frustram quem queria ver esse arco mais fechado.
Nicholas Hoult, por outro lado, rouba qualquer cena em que aparece. Seu Lex Luthor parece saído direto das páginas da DC, mas traz também um quê de autoconsciência que faltava ao vilão há muito tempo. É impossível não notar ecos do Lex de Michael Rosenbaum em “Smallville”, mas Hoult imprime trejeitos, olhares e um tipo de humor mordaz que fazem o personagem ganhar uma textura deliciosa. Ele não é só a força antagônica, é quase o lembrete constante de que, num mundo tão bizarro quanto o de Superman, o ego humano ainda pode ser o pior dos monstros.
Gunn costura tudo isso com seu arsenal visual característico: takes abertos que valorizam cenários vivos, trilha sonora pulsante, cortes rápidos que jogam o público no meio das lutas e movimentos de câmera que ora desaceleram para nos deixar saborear cada golpe, ora aceleram para nos puxar junto na adrenalina. É o DNA de “Guardiões da Galáxia” se manifestando, mas ajustado a um novo universo.
Falando em universo, é impossível ignorar o peso político que o roteiro carrega, sem nunca soar panfletário. Gunn dá espaço para que diferentes pontos de vista sobre as ações do Superman floresçam. Não é só sobre como Clark enxerga o próprio papel, mas sobre o que o resto do planeta pensa disso e isso se amarra ao enredo com uma naturalidade que faz muitos blockbusters parecerem rasos.
Ainda assim, há pequenos deslizes. Falta aquele Clark Kent atrapalhado do Planeta Diário, com seus óculos grandes e gestos desengonçados. O marketing exagerou na entrega: quem devorou trailers e comerciais já chega ao cinema prevendo quase todos os beats da história, o que mata um pouco da surpresa. E, ironicamente, um filme de mais de duas horas que parece voar como seu protagonista acaba deixando cenas importantes passarem rápido demais, sem tempo para respirarmos nelas como gostaríamos.
Mas nada disso consegue diminuir o impacto do que Gunn alcança aqui. “Superman” é o reset que os filmes de super-herói precisavam. Não tem medo de ser extravagante, de ser emocionante, de ser profundamente esperançoso. E talvez essa seja a revolução mais urgente de todas.
Saí da sessão lembrando daquele vídeo de um menino palestino, vestindo uma camisa do Superman, andando em meio aos escombros de sua casa, segurando uma bandeira com o símbolo da Casa de El. Ele fechava os olhos e pedia para Superman vir salvá-lo, enquanto soldados apontavam armas para ele. É devastador pensar que Clark Kent não existe no nosso mundo. Mas, por quase duas horas e dez minutos, James Gunn faz a gente acreditar que talvez exista.
“Superman” (2025)
Direção: James Gunn
Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Nathan Fillion, Isabela Merced
Disponível nos cinemas no dia 10 de julho
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