Existe uma tensão persistente em “Terra da Máfia” que escapa dos diálogos e das armas. Ela está na arquitetura da série, no modo como o silêncio entre um olhar e uma ameaça carrega mais peso do que qualquer tiroteio. A produção mergulha no submundo do crime britânico com um apetite por grandiosidade, mas o faz mantendo o foco nos bastidores das máfias contemporâneas, onde a brutalidade convive com a diplomacia e, muitas vezes, a mascara.
- Duo Jack & Jack vem ao Brasil para três shows em dezembro
- Conheça as apostas musicais de julho no Caderno Pop
- Crítica: “Chefes de Estado” (Heads of State)

É um thriller que não quer ser apenas um retrato estilizado da violência, mas uma observação quase teatral das dinâmicas de poder entre gerações de criminosos. Comandada por uma direção consciente de suas referências e ancorada em performances que carregam camadas, “Terra da Máfia” não tem pressa em seduzir o público. Prefere cercá-lo com rituais familiares, guerras territoriais silenciosas e estruturas familiares tão doentes quanto os negócios que sustentam.
Tom Hardy constrói um personagem que parece sempre prestes a explodir ou desaparecer por completo, desafiando o espectador a entender onde termina o manipulador e começa o homem ferido. Seu “consertador” é menos um executor do que um operador emocional da série alguém que circula por realidades distintas com fluidez, mas sem nunca se encaixar em nenhuma.
Essa fluidez de Hardy encontra espelho em Helen Mirren, que entrega uma matriarca poderosa sem ceder ao clichê da mulher fria e calculista. Ela é o cérebro do império disfarçado de esposa fiel, e é nessa performance que a série encontra seu eixo moral mais ambíguo. Pierce Brosnan, por sua vez, oscila entre o aristocrático e o animalesco com uma precisão que incomoda. Seu personagem, Conrad, é a imagem de um império que ainda se vê no controle, mesmo quando tudo já começou a ruir.
A série não está interessada em detalhar operações ilegais com riqueza de especificidade. Ao contrário, opta por manter o submundo embaçado, como se dissesse que a violência já está normalizada demais para ser explicada. É essa recusa em revelar que confere a “Terra da Máfia” um tom quase litúrgico, como se estivéssemos assistindo a uma missa da corrupção, onde a fé não está mais na redenção, mas na manutenção do poder.
Ainda assim, é impossível ignorar que o roteiro, ao tentar humanizar seus personagens, se arrisca a suavizar demais a brutalidade que essas figuras representam. Quando o foco se volta para os dilemas pessoais dos criminosos, como casamentos em crise ou conflitos paternos, a série corre o risco de nos pedir empatia onde talvez devesse manter o estranhamento.
O visual é calculado, o ritmo é mais introspectivo que explosivo, e a tensão narrativa parece mais interessada na ideia de colapso lento do que em confrontos grandiosos. A trilha sonora e a fotografia reforçam esse estado quase hipnótico de um império que treme, mas ainda não caiu. Não há pressa. O apodrecimento, aqui, é parte do espetáculo.
“Terra da Máfia” ainda caminha nas primeiras horas de sua história, mas já deixa claro que está menos preocupada em oferecer respostas do que em propor um ambiente moral nebuloso, onde os heróis estão mortos e os vilões se reproduzem como dinastias.
É o tipo de série que exige paciência e atenção aos detalhes, e que compensa essa exigência com camadas dramáticas sólidas e atuações que comunicam mais com o corpo do que com as falas.
Título: Terra da Máfia
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Tom Hardy, Pierce Brosnan, Helen Mirren, Paddy Considine
Disponível em: Paramount+
Criado por: Ronan Bennett
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






