Há discos que soam como destino. “The Dream”, estreia do duo The Favors, é desses trabalhos que parecem já nascer clássicos, mesmo quando ainda carregam a juventude da descoberta. FINNEAS e Ashe se encontram em um ponto raro da música pop: o de dois artistas que, ao juntarem vozes e visões, alcançam algo que não é soma, mas sim multiplicação. O resultado é um álbum que trata da memória e da modernidade com a mesma naturalidade, como se o ontem e o hoje coubessem dentro de uma mesma canção.
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A estética de “The Dream” não se limita ao som, mas constrói um universo. As harmonias vocais de Ashe e FINNEAS soam como diálogos íntimos que poderiam muito bem ter saído das colinas ensolaradas de Laurel Canyon nos anos 70, mas são entregues com o frescor de uma geração que molda sua identidade entre referências clássicas e narrativas digitais. O disco transita entre delicadeza e intensidade sem medo de ser contraditório, oferecendo um mosaico de emoções que vai da alegria quase infantil ao peso melancólico de amores e desilusões.
Há aqui uma reverência clara a nomes que moldaram a história da canção, mas o que impressiona é como o duo não se limita a imitar. Em vez disso, “The Dream” traduz esse espírito de época para um presente que exige autenticidade. Ao contrário de tantos trabalhos que revisitam o passado como pastiche, este álbum ressignifica influências sem perder de vista o olhar contemporâneo. O resultado é um som que soa familiar e, ao mesmo tempo, surpreendentemente novo.
Outro ponto que dá força ao projeto é o caráter quase artesanal de sua produção. Gravado em grande parte de forma despretensiosa, com instrumentos básicos e vocais ao vivo, o álbum se aproxima daquela sensação de estar na sala com os artistas, testemunhando não apenas a música, mas a energia do encontro. É raro ouvir um disco atual que se preocupe tanto em preservar a organicidade, o calor humano que tantas vezes se perde no excesso de polimento.
“The Dream” é também sobre cumplicidade. A troca entre FINNEAS e Ashe cria um eixo de complementaridade que raramente se encontra em parcerias musicais. Eles dividem versos como se estivessem passando confidências ao ouvido do ouvinte, com uma naturalidade que lembra os grandes duos da música, mas sem cair em fórmulas prontas. É uma química que não se fabrica em estúdio, porque nasce de uma amizade real, cultivada ao longo dos anos, e agora transformada em obra.
Se há uma palavra que define o disco, talvez seja nostalgia. Mas não aquela nostalgia paralisante, de olhar para trás com saudade melosa. “The Dream” evoca um passado idealizado para, em seguida, devolvê-lo ao presente com frescor e vitalidade. O álbum cria uma sensação paradoxal: soa antigo e atual ao mesmo tempo, como se fosse capaz de ocupar múltiplos tempos de escuta.
No fim, o projeto cumpre exatamente o que seu título promete. “The Dream” é um sonho compartilhado entre artista e público, entre o desejo de reviver uma era e a necessidade de criar algo que fale com a nossa própria. É música feita para aquecer, para abraçar, para se ouvir do começo ao fim em uma tarde ensolarada ou em uma noite de solidão. É, acima de tudo, um lembrete de que ainda há espaço para álbuns que pensam no todo, que não se contentam em ser apenas coleção de singles, mas querem ser experiência.
E se esse é apenas o primeiro capítulo do The Favors, o futuro parece não apenas promissor, mas inevitavelmente grandioso.
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