Existem filmes que te fazem agradecer por estar vivo no agora, com suas dores humanas, contas pra pagar, envelhecendo como manda o ciclo natural. “The Old Guard 2” joga justamente o oposto na nossa cara: o peso absurdo de uma vida que nunca acaba. Andy, que atende por Andromache de Cítia (Charlize Theron), está aí há milênios pra provar isso. E se antes o fardo era só existir e ver o mundo repetindo seus erros, agora o problema é ainda maior, porque sua imortalidade não é mais garantida.
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A sequência da Netflix não perde tempo em colocar tudo a perder. Andy descobre a mortalidade bem no momento em que surge uma ameaça tão antiga quanto ela, na figura de “Discord” (Uma Thurman), primeira das imortais e completamente ressentida com o mundo. Enquanto Discord sonha com vingança e destruição, Andy tenta juntar os cacos do seu clã. “Nile” (KiKi Layne) ainda está assimilando o peso de uma eternidade, “Joe” (Marwan Kenzari) e “Nicky” (Luca Marinelli) seguem naquela paixão histórica que resiste aos séculos e “Booker” (Matthias Schoenaerts) paga caro por suas traições, isolado do resto do grupo.
Nesse rolo todo surge também “Quynh” (Veronica Ngô), que depois de séculos encarcerada tem sede de sangue ou justiça ou só caos mesmo. Fato é que ninguém ali está 100% estável emocionalmente. É até curioso, como viver mil anos e ainda se vestir mal ou tomar decisões horríveis de relacionamento? O roteiro parece cutucar isso em alguns momentos, mas logo volta para o que interessa: espadas, balas e coreografias que misturam pancadaria com metáforas sexuais nada sutis.
A direção de Victoria Mahoney tenta dar fôlego novo à franquia. As lutas têm mais espadas, o que já melhora em relação ao primeiro filme, mas o corte rápido demais rouba parte do prazer de ver cada golpe. Em compensação, há algumas sacadas visuais interessantes, como a cena em que o passado e o presente se sobrepõem enquanto Andy caminha, vendo séculos se dissolverem ao redor dela. É bonito e até meio melancólico, lembrando que mesmo para quem nunca morre, o tempo destrói tudo.
Só que nem tudo funciona. O filme às vezes parece filmado como reality show, com câmeras tremidas e zooms desconfortáveis, uma tentativa esquisita de dar crueza ou urgência à história que soa deslocada. Não é “Melancolia” e não precisava se fingir de tal. Os diálogos então seguem o padrão da franquia, falsos e inchados de frases que ninguém diria em voz alta, salvo talvez um poeta bêbado às três da manhã.
Mas vamos ser justos, é divertido ver o caos. O filme abraça o brega, como na mansão cafona do vilão ou nos momentos quase pastelão em que, pela milésima vez, alguém é amarrado com zip ties. Essas imortais simplesmente não aprendem. O humor também salva, principalmente na “DR” infinita dos personagens que estão tecnicamente juntos há séculos. É engraçado pensar que pra eles, um divórcio gay dura mais tempo do que toda a existência de civilizações inteiras.
O grande ponto fraco acaba sendo a própria “Discord”. Apesar de Uma Thurman trazer presença de sobra, o roteiro entrega uma vilã rasa, sem a complexidade que o antagonista do primeiro filme tinha. É o clássico caso do “mais imortais, mais problemas”, o que sufoca um pouco o plot. Parece que, na ânsia de expandir o universo, o filme esquece de respirar, de deixar o peso das decisões invadir o público.
Ainda assim, “The Old Guard 2” entrega o que promete, violência estilosa, dilemas existenciais, amores que atravessam eras e aquele convite velado pra gente torcer pra nunca ter que viver pra sempre. E se depender da Netflix, é bem provável que a gente ainda veja esse povo empunhando espadas futuristas em 2030. Pelo menos vai garantir mais memes, mais zip ties e quem sabe, finalmente, um romance sáfico pra honrar essa eternidade.
The Old Guard 2 (2025)
Direção de Victoria Mahoney
Roteiro de Gina Prince-Bythewood e Greg Rucka
Elenco: Charlize Theron, KiKi Layne, Veronica Ngô, Uma Thurman
Disponível na Netflix
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