“The Shift: O Deslocamento” é o tipo de produção que acredita estar entregando profundidade espiritual e questionamentos metafísicos, mas termina soterrada em pretensão, didatismo e um roteiro que parece escrito para agradar a uma plateia que já concorda com tudo que ele diz. Dirigido por Brock Heasley, o longa se apresenta como uma jornada épica sobre fé, amor e escolhas, mas o que surge na tela é um emaranhado de ideias dispersas. Kevin Garner (Kristoffer Polaha) é o homem comum que, após um encontro com uma figura misteriosa conhecida como Benfeitor (Neal McDonough), passa a transitar entre realidades alternativas em busca de sua esposa, Molly (Elizabeth Tabish).
A proposta até soa interessante: um multiverso governado por uma entidade sombria, onde a fé é a última forma de resistência. Na prática, porém, o resultado é um labirinto narrativo enfadonho que tenta emular obras como “Matrix” e “Interestelar”, mas sem entender o que torna esses filmes grandes.

Há um problema de tom gritante. O filme oscila entre o drama religioso e o sci-fi distópico, e em nenhum momento encontra equilíbrio entre os dois. Quando tenta ser espiritual, parece panfletário. Quando busca ser tecnológico, soa artificial. As realidades paralelas carecem de imaginação e o design visual, em vez de criar atmosfera, reforça a sensação de produção televisiva com pretensões grandiosas.
O elenco se esforça, mas o material entregue não colabora. Kristoffer Polaha parece perdido em meio às metáforas e dilemas morais, e Neal McDonough transforma o vilão Benfeitor em uma caricatura de sermão dominical. Não há nuances, apenas discursos. E quando o filme tenta aprofundar o debate sobre livre-arbítrio e redenção, a narrativa se afoga em diálogos explicativos que tratam o espectador como alguém incapaz de compreender subtexto.
A trilha sonora exagera no drama, as transições entre universos soam confusas e o ritmo arrasta-se por longos minutos que parecem uma eternidade. Mesmo a tentativa de associar o enredo à história bíblica de Jó, um dos pilares mais ricos do Antigo Testamento, se perde em analogias forçadas e interpretações rasas. A dor, a fé e a dúvida de Jó são substituídas por uma fantasia de ficção científica que esvazia o simbolismo da narrativa original.
O maior pecado de “The Shift: O Deslocamento” é acreditar que mensagem substitui cinema. A fé pode ser uma força criativa poderosa, mas aqui é usada como muleta narrativa, não como motor de reflexão. O resultado é um filme que fala sobre esperança, mas que se mostra incapaz de inspirar qualquer tipo de emoção genuína.
Há um mérito técnico isolado: o uso da fotografia em tons acinzentados reforça a sensação de um mundo fragmentado. Mas nem isso salva a experiência. Tudo parece genérico, inflado por ambições que o roteiro jamais alcança. Quando a produção tenta concluir com uma mensagem edificante, o que resta é um vazio.
“The Shift: O Deslocamento” é um delírio místico mal executado, que transforma fé em fórmula e questionamento em espetáculo. A sensação final é de ter assistido a uma longa homilia travestida de ficção científica, em que o sermão é mais importante que a história.
“The Shift: O Deslocamento”
Direção: Brock Heasley
Elenco: Kristoffer Polaha, Neal McDonough, Elizabeth Tabish
Disponível em: Amazon Prime Video
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