Tem ideia que, no papel, soa como erro. Retomar o Roxette após a ausência de Marie Fredriksson entra direto nessa categoria, principalmente pelo peso histórico e emocional envolvido. Só que o palco tem uma habilidade curiosa de reorganizar certezas, e foi exatamente isso que aconteceu no Espaço Unimed, onde um projeto que parecia inviável encontrou um caminho honesto para existir.

Desde o início, fica claro que não existe qualquer tentativa de substituição ou reconstrução artificial do passado. Per Gessle conduz a apresentação com essa consciência o tempo inteiro, seja na postura, seja na forma como organiza o repertório. A lógica do show passa longe da recriação, ela se apoia na sustentação de um catálogo que atravessou décadas e segue funcionando com uma força impressionante. O foco deixa de ser o que já foi e passa a ser o que ainda resiste com naturalidade.
A entrada de Lena Philipsson é, sem dúvida, o ponto mais sensível da proposta. A comparação direta seria inevitável em um cenário menos bem resolvido, mas aqui a escolha artística aponta para outro lugar. Ela evita qualquer tentativa de reprodução e constrói sua presença a partir da própria identidade, entendendo o peso simbólico dessas canções. Existe um respeito evidente na forma como ela ocupa o palco, e esse cuidado vai se transformando, ao longo do show, em confiança e domínio.
O repertório, por sua vez, assume o papel central da noite. Quando “The Look”, “Listen to Your Heart”, “It Must Have Been Love” e “Joyride” aparecem, a dinâmica muda completamente. O público deixa de ser espectador e passa a atuar como extensão direta do espetáculo, cantando em coro, sustentando refrões e criando uma atmosfera que ultrapassa qualquer individualidade no palco. A sensação é clara, essas músicas já ganharam autonomia, pertencem muito mais à memória coletiva do que a quem as criou.
Existe ainda uma decisão técnica relevante que impacta diretamente o resultado. As músicas aparecem em tons levemente ajustados, um detalhe que revela uma preocupação concreta com a integridade das canções. A escolha evita esforço desnecessário e preserva a essência sem cair em caricatura, mantendo o equilíbrio entre fidelidade e adaptação.
No palco, Per Gessle assume com mais evidência um papel que sempre foi dele, mas agora ganha protagonismo. Comunicativo, confortável e até provocador em alguns momentos, ele conduz o show com leveza, arrisca interações em português e demonstra leitura precisa do ambiente. Existe controle e consciência de onde o projeto se sustenta.
Já Lena Philipsson cresce de forma gradual ao longo da apresentação. O início mais contido dá lugar a uma performance mais solta e segura, com maior interação e presença de palco. O momento em que dedica “It Must Have Been Love” adiciona uma camada emocional importante, conduzida sem exageros. A escolha pelo caminho mais simples reforça o respeito e amplia o impacto.
A banda de apoio cumpre um papel essencial ao manter a identidade sonora intacta. Os arranjos seguem fiéis, com pequenas adaptações que atualizam sem descaracterizar. Não existe espaço para reinvenção gratuita, o que se vê é precisão e entendimento do material original.
O show entrega algo que supera a expectativa inicial justamente por entender seus próprios limites. Ele não tenta expandir a história, ele reconhece o tamanho dela e trabalha com consistência dentro desse espaço, sustentando a proposta com segurança. O resultado surge desse equilíbrio, onde memória, respeito e execução caminham juntos.
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