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“Sirāt” leva o cinema espanhol ao limite da experiência sensorial

Sirāt”, novo longa de Óliver Laxe, estreia hoje (26) nos cinemas brasileiros carregando o peso de ter saído do Festival de Cannes com o Prêmio do Júri e a responsabilidade de representar a Espanha no Oscar. Mas reduzir o filme a sua trajetória de premiações é um erro crítico. “Sirāt” é experiência, é rito, é travessia.

“Sirāt” leva o cinema espanhol ao limite da experiência sensorial

A premissa parece simples. Luis, vivido por Sergi López, e seu filho Esteban, interpretado por Bruno Núñez Arjona, atravessam o sul de Marrocos à procura de Mar, filha e irmã desaparecida em meio a uma rave no deserto. O ponto de partida é uma festa eletrônica pulsando sob o céu africano. Corpos dançam, caixas de som vibram, a areia levanta. Em meio à celebração, pai e filho distribuem folhetos com o rosto da jovem. A imagem da ausência contrasta com a explosão sensorial ao redor.

O que poderia ser um drama familiar se converte em uma jornada de sobrevivência em território instável. Um grupo de jovens europeus segue em direção a outra rave, mais ao sul, perto da fronteira com a Mauritânia. Soldados interrompem a festa. Um conflito internacional explode nas ondas do rádio. O deserto deixa de ser cenário exótico e passa a operar como zona de guerra. Laxe articula esse deslocamento com precisão formal. A euforia se dissolve em ameaça concreta.

Filmado em Super 16 mm, “Sirāt” aposta na textura da película para acentuar o caráter tátil da narrativa. A granulação reforça a sensação de poeira, calor e desgaste físico. As locações na Espanha, especialmente na Rambla de Barrachina, e depois em regiões próximas a Errachidia e Erfoud, no Marrocos, conferem uma geografia híbrida ao filme. Há algo de mítico na paisagem. Ao mesmo tempo, tudo parece brutalmente real.

No centro dessa travessia está Luis. Sergi López entrega um trabalho de contenção impressionante. Seu personagem fala pouco. O corpo carrega o peso da culpa e da esperança. É um homem que insiste em seguir quando qualquer lógica recomendaria recuar. Esteban, por sua vez, representa a inocência exposta ao colapso do mundo adulto. A tragédia que atinge pai e filho no meio do percurso muda radicalmente o eixo emocional do filme e empurra a narrativa para um território ainda mais árido.

Laxe já declarou que considera este seu trabalho mais político e mais radical. A afirmação faz sentido. “Sirāt” não oferece discursos diretos sobre geopolítica, mas insere seus personagens em um cenário onde fronteiras, guerras e deslocamentos forçados moldam cada decisão. O rádio anuncia uma Terceira Guerra Mundial enquanto jovens improvisam uma rave no meio do nada. A pista de dança vira ato de resistência e também de negação.

A sequência do campo minado é, desde já, uma das mais impactantes do cinema recente. O suspense não se constrói com trilha manipuladora, mas com silêncio, vento e passos calculados. A estratégia desesperada de usar vans como detonadores improvisados expõe a fragilidade humana diante de forças invisíveis. Cada explosão ecoa como sentença. O deserto, que antes parecia infinito e aberto, revela-se claustrofóbico.

Há também uma dimensão espiritual sugerida pelo próprio título. “Sirāt” remete à ponte, ao caminho estreito que separa salvação e condenação em tradições islâmicas. Laxe transforma essa metáfora em linguagem cinematográfica. Caminhar em linha reta, pisar onde o outro pisou, fechar os olhos e confiar. A sobrevivência depende de fé no rastro alheio.

Após a estreia consagrada em Cannes, o filme percorreu festivais como o de Toronto e San Sebastián, consolidando sua reputação internacional. Na Espanha, superou 2,7 milhões de euros em bilheteria, número expressivo para uma obra de perfil autoral e proposta arriscada. A circulação global, com distribuição em múltiplos territórios, confirma que há espaço para um cinema que desafia o espectador.

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