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Crítica: Anavitória, “Claraboia”

Texto: Ygor Monroe
18 de setembro de 2025
em Música, Resenhas/Críticas

Existe algo de curioso em “Claraboia”. O disco mais recente de Anavitória chega como uma espécie de espelho, refletindo exatamente o que já conhecemos da dupla, mas sem mostrar novas camadas ou revelar algo que realmente transforme sua narrativa musical. É como abrir uma janela esperando enxergar um horizonte diferente e perceber que o cenário é o mesmo de sempre, apenas reorganizado. O álbum mantém intacta a identidade da dupla, mas ao mesmo tempo reforça uma zona de conforto que limita suas próprias possibilidades.

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Crítica: Anavitória, “Claraboia” | Foto: Livia Rodrigues

Com vinte faixas condensadas em pouco mais de quarenta minutos, “Claraboia” poderia ser o momento para consolidar uma virada de chave criativa, algo que confirmasse a evolução natural após anos de estrada. No entanto, o que se ouve é um prolongamento de escolhas já feitas em discos anteriores. A sonoridade se ancora em acordes suaves, melodias acústicas e um canto compartilhado que se repete como fórmula. Essa constância, por um lado, garante reconhecimento imediato e cria familiaridade junto ao público. Mas, por outro, aprisiona a dupla dentro de uma moldura que começa a soar estreita demais.

A coesão estética que tanto agrada aos fãs funciona aqui como faca de dois gumes. Se por um lado há continuidade, por outro existe a ausência de risco. A música de Anavitória permanece em uma linha reta, sem desvios, sem curvas, sem a inquietação que grandes obras da música brasileira sempre buscaram provocar. O resultado é um disco bonito na superfície, mas que carece de profundidade. As canções giram em torno dos mesmos temas, os mesmos afetos e a mesma cadência emocional que já se tornaram assinatura da dupla.

O problema não está em ter um estilo definido. Muitos artistas constroem carreiras sólidas a partir da fidelidade a uma estética. O ponto crítico surge quando essa estética se repete sem transformações, sem nuances que revelem maturidade ou novas perspectivas. “Claraboia” reforça a impressão de que a dupla prefere permanecer dentro de uma fórmula segura, confiando em uma base devota de ouvintes que não exige grandes revoluções. É música que se consome com facilidade, mas que dificilmente deixa marcas mais profundas.

Outro aspecto que compromete a experiência são as escolhas estruturais. Interlúdios curtos e passagens que não se desenvolvem acabam fragmentando a narrativa do disco. Em vez de enriquecer, criam quebras desnecessárias, como pequenos desvios que não levam a lugar algum. A sensação é de que o álbum poderia ter metade do tamanho e ainda assim entregaria exatamente a mesma proposta.

O rótulo de “nova MPB” que tantas vezes acompanha a dupla também merece ser colocado em questão. A sigla MPB sempre foi associada à experimentação, ao diálogo entre gêneros e à busca por inovação dentro da tradição. Em “Claraboia”, esse espírito quase desaparece. O disco se alinha mais ao consumo previsível de uma música que prefere reafirmar sua fórmula a se arriscar em novas direções. Se isso define o que hoje se chama MPB, talvez seja necessário repensar o termo.

No fim, “Claraboia” confirma aquilo que já se sabia: Anavitória domina seu próprio estilo e sabe como entregá-lo com consistência. Mas a mesma consistência que garante fidelidade também cobra um preço. Ouvindo o disco, fica a sensação de déjà vu, como se cada faixa fosse uma variação mínima de algo que já ouvimos antes. É um álbum correto, produzido com competência, mas que desperdiça a oportunidade de reinventar e de provocar.

Nota: 55/100 | Anavitória, “Claraboia”

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Temas: CríticaMúsicaResenhaReview

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